Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 28, 2016

UM RELÓGIO PARA MARCAR O TEMPO, não as horas

Em 1974, ao concluir minha residência médica em Pediatria, assumi um dos meus primeiros empregos como médico. Em decorrência, o primeiro salário.

Com meu primeiro salário, meu primeiro relógio de qualidade. E meu pulso passou a exibir a imagem de um Mido automático. Funcionava com os movimentos do braço, sem necessidade de corda ou bateria.

Durante muitos anos esse elemento no meu pulso me acompanhou em plantões insones que atravessavam madrugadas tensas, testemunhando momentos de dor e aflição e, muitas vezes, o ressurgir de vidas em que o limite letal estava bem ali. Era o risco entre a vida e a morte. Também esteve comigo em festinhas inocentes autocontroladas pelo temor à ditadura.

Aí começaram a surgir os relógios digitais, com seu visual moderno e suas baterias com prazos de validade. E sem ponteiros.

E o velho Mido foi esquecido em uma gaveta, transportado em minhas mudanças de solteiro e de casado, e vez por outra resgatado de arroubos de desapego e ímpetos de doações sem ponto futuro. Mas continuava abandonado.

Neste ano de 2016, quando tomava as providências iniciais para minha romaria pessoal, que me levaria a Juazeiro do Norte para uma bênção do Padim Ciço, uma surpresa. Revirando gavetas pouco remexidas, descobri o relógio há anos esquecido. Tomei-o na mão e, para minha surpresa, seu mecanismo começou a se movimentar, pondo imediatamente em ação uma sequência de eventos mecânicos que faria com que ele me acompanhasse em minha viagem. Ao final, uma exitosa via-sacra em forma de romaria no rumo do questionamento existencial. Não foi preciso ir a Santiago de Compostela. Falando de Espanha, uma plaqueta no meu escritório informa: “Dali pintava relógios para matar o tempo”.

img_2209

Um relógio. O tempo. As horas, inclusive.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Que agradável recordação, meu caro Evaldo!
    Houve época em que possuir um MIDO era como conservar um tótem.
    Meu pai possuiu um desses, de algibeira, preso a uma distinta corrente que fazia um charme entre uma das reatas e um pequeno bolso à frente (também utilizado como porta moedas) da calça.
    Velhos e bons costumes; renovadas saudades.

  2. Alvíssaras, Evaldo.

    Ainda há vida inteligente neste Planalto Central.

    Neste país temerário.

    abs, geniberto

  3. Bela recordação! Me faz lembrar o meu primeiro relógio comprado com muito sacrifício na CASA PORCINO em Mossoró. Era um relógio marca SEIKO automático e a prova d’água. Custou CR$ 50,00 (cincoenta cruzeiros). Na época era considerado muito caro. Não sei avaliar na moeda de hoje. O bom, era que se podia passear com o mesmo pelas ruas sem a preocupação de ser assaltado. Hoje aqui no Rio de Janeiro compro relógios no camelô a R$ 10,00 (dez reais) e mesmo assim já fui assaltado 5 vezes e todas elas o marginal exige o meu relógio.
    Um grande abraço a todos e Deus os abençoe

  4. Evaldo
    Esta crõnica traz ã tona não só o relógio automático que reativaste ao colocar no pulso, mas resgata toda uma trajetória de vida de um menino que, saindo de sua terra natal, buscou e conseguiu, a duras penas, realizar seus sonhos.
    Hoje, motivo de orgulho para todos os que conhecem sua história de vida.
    Eu, entre eles.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: