Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 2, 2016

UM ABRAÇO DO PADIM CIÇO

Quando criança, minha mãe participou de uma romaria a Juazeiro, e fiquei aborrecido por ter sido excluído daquela aventura. É que naquela época eu não entendia de dificuldades. Durante todos esses anos esse nó Górdio não desatava em mim. Sentia a necessidade de, em algum momento da minha vida, esclarecer os fatos. Eu, Teseu; o destino, Ariadne.

Desse modo, assumi a responsabilidade de me tornar protagonista de uma romaria pessoal que tinha por finalidade desnudar um check list em que o não resolvido se mistura ao ainda não conhecido, em uma pizza existencial posta à mesa para minha degustação.

Definido o roteiro, saímos – eu e meu irmão Ivo – de Natal com destino a Juazeiro do Norte, contemplando, pelas estradas em bom estado de conservação, cidades do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Ceará, com ou sem parada, porém sempre com o sabor da despedida. Era a certeza de que jamais voltaria a passar por aqueles caminhos.

Na viagem de ida, em face de uma sinalização deficiente, tomamos o rumo de Patos, erro que nos adicionaria trezentos quilômetros ao nosso odômetro. No retorno à cidade de Sousa, e ainda confusos, percebemos de relance a placa que indicava a divisa dos estados do Ceará com Pernambuco. Imagino que foi na região entre Barbalha e Milagres. Não tínhamos Pernambuco em nossa programação original. Retomamos a rota traçada, Sousa como ponto de chegada. Esses deslizes estradeiros acrescentaram mais treze quilômetros no nosso odômetro.

Chegamos a Juazeiro do Norte no final de uma tarde quente, de ar abafado. De longe, ainda na estrada, imaginava aportarmos em uma cidade de pequeno ou médio porte. Ao entrarmos em suas ruas de excelente pavimento, a certeza de estarmos adentrando uma grande cidade de economia vibrante. Foi uma primeira impressão que encheu de orgulho a alma deste norte-riograndense ainda em busca do seu por quê. No hotel, a confirmação de que em Juazeiro estão instaladas filiais dos maiores grupos comerciais do Brasil, além de fábricas de objetos em ouro, confecções de roupas e de instrumentos em ferro e alumínio. Tudo para dar certo.

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Quinze dias depois de nossa visita a Juazeiro do Norte, o jornal Folha de São Paulo publicou, em conjunto com o Datafolha, o Ranking de Eficiências dos Municípios, que leva em consideração os indicadores de saúde, educação e saneamento. A cidade foi considerada o centro da melhor mesorregião nordestina, que é também a terceira melhor do país, atrás de Araraquara e do nordeste fluminense. O prefeito terceirizou parte da saúde, política adotada por muitos municípios para reduzir custos. Na educação, além dos altos índices destacados no REM-F, a prefeitura arca com 100% do transporte dos alunos.

Na visita ao monumento do Padre Cícero Romão Batista, estrategicamente localizado em local afastado da cidade, a emoção de contemplar sua imensa imagem, em que o chapéu com o diâmetro de um fusca nos tira a naturalidade das comparações.

Àquela hora da manhã o monumento estava quase deserto. Os romeiros eram escassos, e, ali, inexistentes. Somente nós. Já me encaminhava de volta ao estacionamento quando imaginei ouvir um chamado. Novamente o chamado. Percebi o Padim Ciço em tamanho natural que parecia me chamar com o olhar. Aquiesci ao chamado. Um abraço de um avô. Um cochicho. O que imagino ter ouvido no silêncio daquela manhã? Depois eu conto.

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À noite, no hotel da praia de Upanema, em Areia Branca, ladeados por um bem tocado violão e degustando um bom vinho português, demos por encerrada nossa romaria pessoal, via-sacra existencial de purificação e despedidas, quando o corpo de setenta anos é avisado de que se aproximam os tempos de moderação e calmaria.

Um novo ser. Um Nordeste que nos enche de orgulho. Uma romaria.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Fantastico relato amigo. Parabens. Precisamos resgatar os eu´s que ficaram na infancia.

  2. Amigo Evaldo! Os ares do Nordeste nos deixam rejuvenescidos e cheios de vitalidades. É assim que me sinto quando volto a Areia Branca. Fico feliz por teres conseguido fazer sua romaria desejada ao longo desses anos. Quando criança não entendemos as dificuldades que passam nossos pais. Isso me faz lembrar quando desejei uma bicicleta que na hora custava CR$ 8.000,00 ( oito mil cruzeiros) que ainda eram chamados de oito mil contos de réis. Chorei porque minha mãe não a comprou. Hoje eu entendo porque. Deus há de te abençoar, proteger e ajudar em suas romarias da vida. Sempre em suas crônicas há algo para relembrarmos nosso passado glorioso. Obrigado amigo e que Deus o abençoe hoje e sempre.

  3. Dr. Evaldo na placa está escrito os conselhos de Padre Cícero. Que conselhos são esses?

  4. O q me impressiona nesta nobre criatura, escritor, poeta de tantos inconfundíveis escritos, muitos deles nos transportando a um tempo áureo de nossa AB, está na preocupação de resolver todas as suas pendências existenciais. E acredito que o faça de forma a ñ deixar a desejar (opinião desta humilde seguidora…)
    Quando de sua saída de Juazeiro, e atendendo o suposto chamado do Pe Cícero, atrevo-me a ‘achar’ que, no abraço, o santo padre deve ter lhe dito:
    “Parab€ns, menino, continue assim! E se houver mais alguma pendência neste Mundo ñ deixe de resolver a contento.”
    Bela crõnica, Evaldo!
    Um abraço a todos.

  5. Jerõnimo, oi, amigo!
    Quanto aos conselhos do Padre Cícero, procure lê-los, ampliando as plaquinhas.
    São divinos!
    No próximo ano, vê se resolve retornar a terrinha amada. O tempo corre!
    Um abraço.

  6. Sônia olá! Antes eu nem cogitava em viajar para Areia Branca.
    Agora já penso em ir. Ampliei as plaquinhas e deu para ler, mas os conselhos que queria eram os ecológicos do Padim :
    Preceitos do Padim Ciço.
    “Não derrube o mato nem mesmo um só pé de pau
    – Não toque fogo no roçado nem na caatinga
    – Não cace mais e deixe os bichos viverem
    – Não crie o boi nem o bode soltos; faça cercados e deixe o pasto descansar para se refazer
    – Não plante em serra acima nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e não se perca a sua riqueza
    – Faça uma cisterna no oitão de sua casa para guardar água de chuva
    – Represe os riachos de cem em cem metros, ainda que seja com pedra solta
    – Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só
    – Aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar a conviver com a seca
    – Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gato melhorando e o povo terá sempre o que comer
    – Mas, se não obedecer, dentro de pouco tempo o sertão todo vai vivar um deserto só.”


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