Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 21, 2016

ALCAÇUZ, DO PARAÍSO DO SILÊNCIO À ESTUPIDEZ DOS FUZIS

Corria o ano de 1966. Eu acabara de passar no vestibular de medicina. Mês de julho. Férias. Meu irmão marinheiro – José Maria, Dedé – me convidou para conhecer uma praia distante, quase desconhecida. Era Alcaçuz.

Não havia estrada. Ou se ia pela praia, em uma dependência total ao movimento da maré, ou de bugre ou de jipe pelas areias tangidas das dunas pelo vento vadio que dominava aquelas paragens. Dedé havia chegado do Rio de Janeiro em um jipe guerreiro 1942, e queria demonstrar a bravura daquele veículo. E lá fomos nós com destino a Alcaçuz.

Vencidos todos os obstáculos, por trás de um vasto coqueiral avistamos um vilarejo perdido no tempo, com a areia fina tomando todas as ruas com seu desalinho perfeito. Ali parecia morar o silêncio. Ouvia-se até o barulho dos filhotes de pássaros ensaiando seus primeiros voos e o roçar das folhas dos coqueiros.

No centro da vila, a mercearia mais importante do lugar. E a única. No alto da casa a inscrição Secos e Molhados acomodava as pretensões do freguês casual. Na frente da casa, uma árvore, um banco de madeira. Enrolado junto ao tronco, como se quisesse morder o próprio rabo, um cachorro vira-lata parecia sonhar com seus preás. O piso na frente da mercearia era coberto por cascas branquinhas de caramujos tirados da lagoa que ficava ao lado. Logo me lembraria da esquistossomose quando convidado para um banho na famosa lagoa.

O dono da mercearia nos atendeu com o silêncio de uma pluma, a presteza dos pés descalços e a aura da mansidão. Era seu Manoel Cabelo Ralo, casado com dona Maria Rala, um dos casais mais importantes do local. Uma olhada pela mercearia e uma constatação: o tempo estacionara ali. À venda, um pouco de quase tudo. De querosene a fumo de rolo, cabresto, arame farpado, açúcar preto, enxadeco, alpercata, dobradiça, confeito, pinga, além de tareco, colorau, pão doce, rapadura e sabão em grandes pedaços, cortados a faca. Também vendiam linha, agulha, dedal, sianinha e ri-ri, que era como se chamava o zíper em Areia Branca, onde nasci. Quase esquecia da mariola.

Pela mídia tomo conhecimento de que Alcaçuz é a maior unidade prisional do Rio Grande do Norte. Ali, hoje caldeirão do inferno, a cada dia acontecem tentativas de fuga, assassinatos e toda forma de violência.

Prefiro a lembrança das dunas quase virgens, do império do silêncio e do jipe 1942.

E a presença quase pluma de seu Manoel Cabelo Ralo.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Que linda crõnica, Evaldo! Com uma precisão incrível; riqueza de detalhes a respeito de um local e fatos vivenciados por ti e teu irmão Ded€, há anos, mas q permaneceram nítidos nesta tua notável memória.
    Realmente, a Alcaçuz (praia) sofreu uma transformação extraordinária, o q ë lamentável… atë o nome, hoje, nos amedronta!
    Agora, lembrar-te do ri-ri, da sianinha, do dedal, do colorau… me impressiona!!!
    Grande abraço.


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