Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 24, 2016

DA SINGELEZA DE UMA CARTOMANTE À FORÇA DOS BÚZIOS E DOS ORIXÁS

A noite chegara junto com o alvoroço herdado da tarde que se fora. Era uma noite quente de um mês de julho. O ano, 1958. O ambiente, pura tensão. O apurado da mercearia estava na gaveta, e ninguém conseguia encontrar a chave do cofre. Era um cofre antigo, quase mudando de cor. Era verde claro na frente e verde escuro dos lados. Mais parecia um velho sapo cururu com um segredo e o buraco de uma chave no peito achatado.

Procura aqui, retorna ao balcão, vê se está em uma dessas gavetas. Sim, eu sei que já procuraram duas vezes, mas tentem outra vez, e outra vez, gritava o dono do estabelecimento. Alguém já procurou na calçada, pros lados do cais? Fechem as portas. Vamos procurar essa chave apenas aqui dentro, resmungou o dono do sapo cururu, digo, do cofre.

Todo esse tumulto ocorria em uma mercearia da Rua da Frente. A noite já se instalara naquela sauna improvisada, e  não havia mais nem um centímetro isento de acurada procura. Surgiu então uma voz feminina, vinda da porta entreaberta: O jeito é consultar dona Porciúncula, a cartomante. Sei que ela mora pros lados da Ilha, indo pela Rua dos Calafates. E logo alguém disse que conhecia o caminho.

O bodegueiro, apressado, separou cinco mil réis para gratificar a cartomante, juntou um pedaço de fumo de rolo enrolado em papel embrulho, puxou as calças bem acima do umbigo, apertou o cinto e partiu em busca da adivinha.

Ao chegar, o comerciante ficou diante de uma mulher com cara de maracujá da semana passada, usando uma peruca feita de rabo de cavalo, o que lhe dava a aparência de uma habitante de Stonehenge. Ela disse de olhos fechados, com voz de cemitério: o que o senhor procura está bem no fundo, no escurinho do olho do furacão onde se esconde o fogo da libido. Fique tranquilo que o que foi perdido aparecerá com o clarão do novo dia. No meio da consulta a porta atrás da mesa foi forçada por fora. A cartomante olhou de lado sem mexer a cabeça e, com o pé, abriu a porta. Era Fiapo, um velho e comprido cão, que deu uma olhada para o cliente, mirou em sua canela, rosnou baixinho e saiu. O comerciante  quis pagar, ela não aceitou. Depois mandaria alguém à bodega pegar umas meiotas. O fumo ficou em cima da mesa. Seria utilizado em algum trabalho futuro. Terminou virando chiclete.

Falava-se que a cartomante era um pouco magra, outras vezes ela parecia ser gorda. Depois, descobriu-se que, quando ela estava em Mossoró, era substituída por uma prima. Como ela nunca saía de casa, ninguém conhecia suas reais feições. E a peruca era a mesma.

Mais calmo, o velho comerciante voltou para casa, dormiu o sono dos justos e no dia seguinte foi para a bodega com uma ansiedade difícil de disfarçar. Onde estaria aquela chave? E que estória mais esquisita era aquela da cartomante? Até esquecera o que a velha com cara de maracujá da semana passada lhe  dissera.

No meio da manhã, ao revirar um velho chifre de bode que mantinha escondido como talismã em um canto da prateleira, a chave do cofre caiu a seus pés. Aos gritos, correu para o sapo cururu, digo, o cofre, e enfiou a chave na fechadura. Rodou o segredo e pronto. Contou os trocados ali depositados, respirou fundo. Tudo resolvido.

No contraponto desta estória, a atuação das videntes nos dias atuais, que assumiu ares de mistério, ambiente a meia luz, cheiro de incenso, onde os jogos de búzios e o manuseio de cartas assumiram dimensões astrofísicas, e os trabalhos são realizados sob a orientação dos sete orixás. Dona Arodanagne, instruída nos labirintos escuros dos bazares do Mercado Egípcio, em Istambul, por exemplo, induz o cliente a um desafio: que venham pessoas com desânimo, doenças, impotência sexual, frieza, problemas amorosos, casamento em decadência, filhos que geram problemas, más condições financeiras, problemas com sócios, comércio, inimigos ocultos, trabalhos feitos; dá garantia com seriedade dos seus trabalhos e solução para os seus problemas. Simpatias para todos os fins, amarração para o amor, rezas e benzimentos para abrir caminhos, cortar olho grande e dor de cotovelo, curas espirituais, nervosismo e insônia. Também promete trazer a pessoa amada a seus pés. Apaixonado e amarrado. Para sempre. Abre os caminhos da sorte e sucesso para os bons negócios. E não precisa falar nada; ela fala tudo. Traz a pessoa amada em poucos dias. Consultas com hora marcada. Pagamento com cartão. Débito em conta.

Imagina se uma profissional com essa especialização vai preocupar seus guias e orixás para ajudá-la a encontrar uma chave de um velho cofre meio verde escuro/meio verde claro, com cara de sapo!

Enfim, o imbróglio do sapo, digo, do cofre foi equacionado.

E o espírito gourmet de Fiapo não lhe permitiu uma abocanhada na canela do comerciante.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Adorei a crõnica, Evaldo!
    Muito bem escrita o que não ë novidade.Mas, despertou-me a curiosidade: que fim teve o sapo cururu, ou melhor, o cofre? Fez-me lembrar um, mais ou menos, semelhante a esse que tínhamos em nossa casa, pelos anos 60.
    Um abraço.


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