Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 8, 2016

BUNDA CANASCA

Elvira acabara de chegar do Rio de Janeiro junto com a família. O pai era militar da Marinha, e fora transferido para servir na Base Naval de Natal.

A família desdobra-se em providências para se adaptar à cidade, à casa e ao trabalho. Uma semana de folga ajudara na solução de alguns problemas, em especial na matricula escolar da filha. E o colégio ficava a duas quadras da residência.

Os primeiros dias de aula passaram rápido, marcando o entrosamento da menina na escola. Os livros foram comprados, o uniforme providenciado. Tudo em ordem. O trabalho do pai na Base Naval estava entrando nos eixos. Tudo evoluía conforme programado.

Segunda-feira da terceira semana. A mãe, Angelina, deixara as crianças na escola e desdobrava-se nos afazeres domésticos. Eram quase dez horas quando Elvira, descabelada e aos prantos, entrou em casa:

– Mamãe, na escola querem que eu faça um negócio estranho na aula de educação física!

– Calma, filha. O que houve?

– O professor falou que nós íamos fazer uma coisa muito feia. Uma tal de bunda canasca. Mãe, isso deve ser muito ruim.

Angelina pegou a filha pelo braço e se dirigiu à escola. Foi direto à sala da diretoria.

– Por favor, quero saber por que minha filha vai fazer uma tal de bunda canasca.

Dona Evangelina, orientadora pedagógica, conduziu mãe e filha à quadra coberta, onde as crianças desenvolviam atividades físicas.

Veja, dona Angelina. Bundacanasca é isso. É o esmo que cambalhota. É uma volta que se dá com o corpo, de frente, uma espécie de rolamento, girando e voltando para a posição inicial.

Elvira, olhando desconfiada para a mãe, dirigiu-se ao local onde suas colegas de turma realizavam os exercícios indicados pelo professor de educação física. E haja bundacanasca.

A mãe combinou que não contariam ao pai o mico que haviam pago naquela manhã.

Mas que palavra estranha, hein!? – confidenciavam as duas a caminho de casa.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Evaldo, interessante relato este!
    A personagem Elvira fez-me lembrar de minha infância quando evitava dizer tal expressão “Bunda canastra ou Bunda canasca” por achar ser um “nome feio” (pornografia), como falávamos naquele tempo.
    Hoje, não existem mais os “nomes feios”, pois escutamos de tudo, considerando normal.
    Mas, reafirmo: sinto muita saudade da inocência que vivíamos frente às disparidades atuais.
    Grande abraço!


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