Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 18, 2016

MEU NETO BOBOU

O Centro de Saúde nº 1 do Guará-I – Distrito Federal – desenvolvia um trabalho de assistência primária à saúde digna dos maiores elogios, pelos idos da década de 1990. A direção, a equipe médica e de enfermagem e os auxiliares de saúde desdobravam-se em seu empenho em prol do paciente, em especial das crianças e das gestantes. Ali trabalhei durante vinte e cinco anos.

Ambulatório de Pediatria. Manhã de agenda lotada, como sempre. Da porta da sala onde eu trabalhava, chamei o paciente Remerson (nome fictício) para o seu atendimento. Estava sentado no banco à frente do consultório e continuou de cabeça baixa, desligado, alheio a tudo, sumido em seu mundo de insipiência. A avó pegou-o pelo braço e entrou na sala.

Remerson era um garotão de doze anos, corpo pesado, já com sinais de obesidade incipiente. Durante toda a consulta ficou calado, escaneando com seu olhar vago os diversos pontos da sala.

– O que há com o garoto? – perguntei

– Ah, doutor, ele bobou.

– Há quanto tempo?

– Há uns dois anos ele foi ficando estranho em casa e na escola, foi se desligando e hoje está assim; bobou. Um meninão desse tamanho, doutor, e não estuda – complementou a avó com ares de resignação.

Iniciei um exame físico detalhado naquele garoto. Os ditames básicos da propedêutica, hoje quase abandonados (inspeção, palpação, percussão e ausculta), eram seguidos com esmero. Ali também avaliávamos os dados do crescimento e do desenvolvimento de todas as crianças, com atenção especial ao Cartão de Vacinação. Daí o meu entendimento de que a puericultura não é outra coisa senão o atendimento pediátrico bem feito, seja no ambulatório ou no pronto-socorro.

Como fazia com todas as crianças, passei ao exame otoscópico. Aí veio a surpresa. Os dois condutos auditivos estavam totalmente obliterados por cerume ressecado que mais parecia barro. Pedi para esperar lá fora que eu o chamaria no final.

Novamente no consultório, providenciei a lavagem de ambos os ouvidos, de onde saíam aglomerados de cera ressecada. No meio da lavagem, Remerson deu um grito:

– Vó, estou ouvindo tudo de novo!

Remerson deixou o consultório eufórico, aos pulos, feito um cabrito solto no pasto, e sumiu no corredor.

Um caso medieval de surdez que ceifou dois anos da vida de uma criança. Um pouco à frente, o estigma de doente mental à espreita.

Hoje fico imaginando quantas tomografias computadorizadas seriam realizadas, outro tanto de ressonâncias nucleares magnéticas, o P300, Eletroencefalograma com mapeamento cerebral e outros exames, na tentativa robotizada de um diagnóstico tão simples.

Interesse pelo que se faz. Respeito ao ser humano.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. É isso aí, Evaldo.
    Tá faltando bons profissionais que com as atitudes básicas corretas podem evitar “desgraças”.
    A maioria dos médicos mal olham os pacientes. E a anamnese é praticamente zero. O fim da picada!!!!!

  2. Realmente o exame clínico mudou muito e quem sofre são os pacientes! Belíssima crônica!! Abs.

  3. Que belo texto, Evaldo!
    Indubitavelmente este garoto conservará o fato e tua pessoa em sua memória, bem como em seu coração. Restituiste a vida dele já quase destruída. Fato raro, hoje, de se encontrar em muitos dos nossos hospitais…
    Bem o dizes: “Interesse pelo que se faz.. Respeito ao ser humano.”
    Tudo isto faz parte de tua índole.
    Grande abraço.

  4. Tenho pressão alta, estava tratando no Hospital São Lucas em Santos, mas a semana passada fui em uma consulta no INCOR em São Paulo, não desmerecendo o Hospital São Lucas, mas lá( INCOR)é outro tratamento que é dado.
    Estou fazendo exames, espero sair um novo Jerônimo com um passaporte com validade ilimitada.
    Eu já trabalhei no INSS, 17 anos, conheci vários médicos, e deles sempre tive incetivo, ajuda pra carregar a cruz, bons companheiros nas horas difíceis, e nas horas boas. Pra citar um, o Dr. Nilton, médico Chefe Perito, ele cumpria o horário, das 7h às 13:00, depois ia para a Santa Casa de Santos fazer cirurgia, “de graça”.


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