Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 22, 2016

NOITE SEM FIM

Meninada nas redes, o Santo Anjo do Senhor saiu afinado, como acontecia todas as noites, puxado por sua mãe. A luz penetrava pelo alto da parede da sala, que era baixa. Em casa de pobre as paredes internas são pela metade, e as portas não têm ferrolho nem trave, como nas que dão para a rua. Ficam encostadas, e de madrugada batem com a força do vento. Miro desvirou seu tamanco; sabia que dava azar. Corria o ano de 1938, e o Congresso Eucarístico, que aconteceria em novembro, deixava Areia Branca com ares de festa.

Com um olho medroso, conferiu os punhos das redes, e percebeu que alguns irmãos, como ele, fingiam dormir. Miro sabia que, pé ante pé, algum deles logo fugiria para ficar sentado na calçada, onde o converseiro dos adultos ainda se prolongaria, embora já com a animação minguando feito a lua da semana passada. Um roc-roc discreto, vindo de um armador de rede mal lubrificado, desviou sua atenção.

Sobre uma pequena mesa, no corredor, uma chaleira e umas mangueirinhas ligadas a uns bobs para frisar o cabelo. Preparações para a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes, sabia. Na parede oposta, pendurado em um prego, um irrigador para fazer clister. O menino não gostou.

De repente, a usina de luz entrou de folga – hora do recreio – e desligou seus músculos de ferro movidos a diesel. Nos domínios da escuridão, restava à luz cambaleante da lamparina disputar tremeliques com a sombra do pé de cajarana do quintal, que aparecia na fresta da janela.

O menino pôs a cabeça fora da rede, e percebeu o bafo de querosene queimado soprado pela lamparina, que se transformava em tisna pela mágica da física. De fumaça a tisna, de vapor a pó, e com a cor da escuridão. A escuridão tem som, constatou o menino na rede. Som de assombração. O vento, ele sabia, também tem som; som de rajada, como se fosse uma vaquejada de ar. E sorriu com esse pensamento.

Pela fresta da janela, procurou uma réstia de luz; em vão. A lua – ele sabia – não viria naquela noite. Avistou uma estrela caindo bem devagar; vaga-lume do céu, pensou. Ou estrela do mar, que vira na Praia do Meio, exposta à luz, implorando pela volta à água. Percebeu barulhos desconhecidos, que vinham de pontos distintos, próprios da noite. Ruídos de uma noite pelada, escura por inteiro.

O sono se fora; a insônia e o medo chegaram. Talvez o castigo por alguma coisa errada que aprontara durante o dia, imaginou. E lembrou da alma de um gato que havia morrido, e os meninos fizeram o enterro. Até cantaram Avé, Avé, Avé Maria. Seria por isso? Cantar música de igreja em enterro de gato? Por que fui lembrar disso logo agora? – suspirou. Sentiu algo roçar em sua rede, branca e sem remendos quando era do seu tio. Fechou os olhos e puxou o lençol. Tinha medo. Muito medo.

Foi até a janela dos fundos, e olhou pela fresta. Percebeu que o pé de cajarana assumira o espectro de um monstro de muitos braços, mas continuou firme. Até esboçou um riso, quando percebeu que um guiné dormia no alto da árvore. Voltou para a rede.

De repente, o ruído surdo de um monstro passou rosnando feio, pelo alto, lembrando o barulho de um hidroavião a que assistira pousar no rio Ivipanim dias antes. O barulho voltou com mais força, e o monstro passou bem mais perto. Puxou o lençol com tanta força que ouviu o som do tecido rasgando. Pronto, pensou, o monstro vai entrar pelo buraco. Tremeu de medo, e se cobriu de suor. Encolhido, ouviu o assobio da cruviana passando pelo quintal, com seus pés de algodão.

Pela manhã, arrumou-se para seu primeiro dia de aula no segundo semestre. Nada comentou da noite atribulada que tivera.

Em um canto do corredor, sem que Miro percebesse, um rola-bosta esperneava, tentando por-se de pé. Ou seria um besouro do cão? Não deu para conferir.

Foto Barcacas

Na calçada, ficou feliz em ver três barcaças enfileiradas – uma segurando na mão da outra – indo em busca dos navios.

Publicado no blog Era Uma Vez Em Areia Branca

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Que lindo texto, Evaldo!!!!


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