Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 8, 2016

QUEM ME DERA, em 2016

Quem me dera ter a oportunidade de sair de Brasília sem destino, curtindo as estradas repletas de crateras ultrapassadas por motoristas apressados, contratempos desnudados no peso de seus pés e nas cilindradas de seus motores.

Do planalto central, saindo por Goiás e chegando a Minas, parar nas pequenas cidades, comemorar suas praças e bebemorar seus bares impregnados de estórias. Na saída, sem pressa, sentir o cheiro da terra molhada, contemplando a meninada oferecendo frutas à beira da estrada.

Cruzar parte da Bahia, atravessar a costela de Sergipe, cumprimentar Alagoas, chegar a Pernambuco, admirar seus canaviais e seus riachos magros, de caminhada lenta. Adentrar a Paraíba e chegar ao Rio Grande do Norte, sofrido não pela própria natureza – que lhe é pródiga -, mas pela própria e secular politicagem que somente funciona em benefício próprio. Em Natal, renovar sensações antigas, com o mar conjurando com o meu intuito de despedida.

Em Açu, contemplar duas placas, enigma ainda hoje sem resposta. Por que Açu antes do rio e Assu depois? Para conferir, caminhar por suas ruas e conhecer seu povo. E a resposta virá, acredito. Afastando-me das duas placas, ter a ventura de admirar o voo de um carcará. Ou será pedir demais? De passagem por Mossoró, entrar pela vez derradeira em seu Mercado Público, deixando ali o meu último olhar admirando bugigangas do povo, expostas em um tumulto organizado.

Na estrada, no rumo de Areia Branca, vislumbrar as casinhas que tentam se esconder atrás de pequenos arbustos, tendo ao lado um cavalo mecânico petroleando o progresso a qualquer custo. Quilômetros mais feliz, vislumbrar uma placa – Areia Branca a 20 km – e sentir o cheiro do salitre dominar minhas entranhas, minhas vias, todas, e meus sistemas e aparelhos, todos.

Na chegada, ao avistar Upanema à minha direita, com a alegria ainda refrescada por rever Pedrinhas e Casqueira, uma parada, talvez a última. Caminhar devagar até o velho Farol, em uma reverência silenciosa, daquelas de antigamente, quando a gente beijava a mão de nossos pais. O mar, ao fundo, a esconder estórias de pescadores.

No cais, uma olhada para o rio Ivipanim, que bem pode ser a última, em um genuflexo com jeito e sabor de despedida. Erguer o olhar e contemplar o manguezal que emoldura a Rua da Frente, satisfazendo-me com a visão de uma canoa e sua centenária vela triangular cesariando a barriga do rio da minha infância.

Pela última vez, caminhar pela Rua do Meio, naquele pedacinho que vai da Pracinha ao Cine Coronel Fausto – especialmente do lado direito -, buscando aqui e ali vestígios de antigas pegadas. No retorno, defronte àquela esquina da qual tanto falamos, cerrar o nosso Portal um dia desvendado, fechando a página derradeira do meu livro. Sair sem voltar o olhar.

Na Pracinha, agora renovada, deixar algumas gotas expelidas quase sem pressão por glândulas lacrimais em desalinho. Mirar em frente, no rumo do antigo açude, e caminhar pelas ruas – hoje asfaltadas -, ouvir o povo e as vozes sotaqueadas de minha meninice, revirando e tentando renovar as energias de um corpo incapaz de reter e manter um nível adequado de carga. Sinal da bateria no vermelho.

Tenho que empreender essa caminhada.

E sinto que não posso demorar.

EvaldOOliveira

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Comovente tua crônica!!! Digna de nossa reverência, sim!

  2. Interessante essa crônica do Dr. Evaldo, fez me recordar de um dia antes de partir de Areia Branca, que perambulei desgovernado pelas ruas da cidade seguindo até a Praia do Meio, depois até a Matança passando pelo campo da Saudade e o Cemitério. Voltei para a casa de minha Avó Antônia, ela não estava; então fui em direção a casa de minha madrinha Severina que morava na rua Machado de Assis, a porta estava fechada, a janela estava aberta pulei a janela da casa dela e fui até o quintal, ela não estava em casa, retornei para casa e vestir o calção e fui dar o último mergulho na maré. De madrugada(1970) saímos… aparentemente sem destino, rumo ao desconhecido depois da Barra.
    Procurei guardar esse último dia como num filme que sempre passo na memória. Uma música tocava no rádio “Quem parte leva a saudade de alguém que fica chorando de dor…”O ônibus saindo, o último Adeus… ninguém!!!

    “Sair de Brasília sem destino, curtindo as estradas.(que pode ser a última viagem)
    Por Goiás e chegar a Minas, parando nas pequenas cidades,
    contemplando a meninada oferecendo frutas à beira da estrada.
    Sem pressa…
    Cruzar parte da Bahia, atravessar a costela de Sergipe, cumprimentar Alagoas, chegar a Pernambuco. Adentrar a Paraíba e chegar ao Rio Grande do Norte. Em Natal, renovar sensações antigas, com o meu intuito de despedida.
    Em Açu. Por que Açu antes do rio e Assu depois? De passagem por Mossoró, entrar pela vez derradeira em seu Mercado Público.
    Na estrada, no rumo de Areia Branca, vislumbrar as casinhas, tendo ao lado um cavalo mecânico petroleando o progresso a qualquer custo. Alegria ao vislumbrar uma placa – Areia Branca a 20 km.
    Upanema à minha direita, anteriormente passado por Pedrinhas e Casqueira.
    Uma parada, talvez a última. Caminhar devagar até o velho Farol, mar, ao fundo, a esconder estórias de pescadores.
    No cais, olhar para o rio Ivipanim, que bem pode ser a última, em um genuflexo com jeito e sabor de despedida. Erguer o olhar e contemplar o manguezal que emoldura a Rua da Frente.
    Rua do Meio, naquele pedacinho que vai da Pracinha ao Cine Coronel Fausto. No retorno, defronte àquela esquina da qual tanto falamos, cerrar o nosso Portal um dia desvendado, fechando a página derradeira do meu livro. Sair sem voltar o olhar.
    Tenho que empreender essa caminhada.
    E sinto que não posso demorar.”

  3. … sair sem voltar o olhar… desejo, atitude, sonho, esperança. Há um grande simbolismo nessa afirmação. Lot, personagem bíblico, encontrou salvação, junto com as filhas, porque, ao contrário de sua mulher, não olhou pra trás; foi poupado para construir o futuro. Eurídice, a musa que deixaria o Hades e retornaria à vida sob o canto de Orfeu, voltou o curioso olhar para trás e perdeu a chance de deixar os ínferos.
    … sair sem voltar o olhar… eis um grande propósito.
    Contagiante propósito. Quando passar pelo RN, quem sabe não subiremos, juntos, nesse grande elefante, firmes no propósito de andar por aí, sair sem voltar o olhar…


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