Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 29, 2015

CATAVENTOS, OS MOIHOS DE VENTO DA MINHA INFÂNCIA

Na Areia Branca da minha meninice havia muitos cataventos, todos voltados para a captação de água ou para o seu bombeamento. Eram a marca registrada das antigas salinas, sendo usados para bombeamento da água para produção do sal. O giro mágico de suas pás a nos inebriar. Durante gerações foram coadjuvantes de um progresso que, ingrato, os descartaria de nossa paisagem.

O barulho característico dos cataventos, qual prótese mecânica de um gigante alado, rompia o silêncio das madrugadas quentes, úmidas e salitradas. O vento que corria nas várzeas movia suas pás, assobiando sua melodia triste e, na escuridão, no contraluz das estrelas, o catavento parecia um fantasma esquisito, com cauda de um imenso pavão. E seu lamento triste e rouco ecoava nas gamboas e se entranhava nos manguezais, atrapalhando o namoro noturno dos caranguejosCatavento_norsal_200px                                                                                                                                                                                                     Foto Antonio do Vale

O catavento é uma máquina rudimentar que aproveita a energia eólica para produzir um trabalho. Existentes na Europa desde o fim da Idade Média, os cataventos eram utilizados para a moagem dos alimentos (daí serem chamados moinhos de vento). Com o progresso, foram excluídos dessa tarefa.

Os cataventos estão ressurgindo, com entusiasmo renovado, para um novo e importante serviço: geração de eletricidade. No Rio Grande do Norte, especialmente em Areia Branca, a visão que se tem da fauna de cataventos à margem das estradas é deslumbrante, evento que há poucos anos só existia na Europa. O uso da energia eólica é uma das grandes promessas em termos de fontes alternativas de energia elétrica, pois sua geração
não polui nem ocupa grandes extensões de terra.

Na minha infância, a visão dos cataventos, nas investidas no rumo da praia de Upanema ou pelos caminhos de Zé Filgueira, enchia o nosso coração de fantasias. Em Toledo, Espanha, ao imaginar Don Quixote lutando contra os moinhos de vento, mais uma vez me emocionei ao lembrar de Areia Branca e seus cataventos hoje fantasmagóricos.

Cataventos. Ressurgindo como gigantes eólicos.


Responses

  1. Quando pequena (menor que hoje) costumava pedir a meu pai para me levar a Pernambuquinho, praia onde passávamos as férias, a fim de ver “o gigante que rodava”… Era o catavento que ficava bem próximo de nossa casa. Admirava-o sem conhecer sua utilidade, naquele tempo.
    Sempre me volta à memória o fato, quando os encontros a caminho de Areia Branca.
    Agora, analisar o seu comportamento pelas gamboas e pelos manguezais capaz de expressar desta forma “atrapalhar o namoro noturno dos caranguejos… ” esta expressão só emana de ti mesmo, Evaldo, com toda a sensibilidade que habita o poeta-escritor ou escritor-poeta.
    Parabéns!


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