Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 6, 2015

CRISE DE IDENTIDADE

Despachada de casa, sem roupa, desamparada, sentia no corpo as intempéries do clima seco e quente de Brasília. Era noite, e tinha que encontrar rapidamente um local que servisse de proteção. Tinha urgência por um lugar aconchegante e algo com que se alimentar. Caminhou por locais desconhecidos e inóspitos. Desviou-se de uma trilha, que lhe parecia hostil. Percebeu, em meio à escuridão, um local que se lhe apresentava confortável. Percebeu que havia calor e restos de alimento. Decidiu que ali ficaria.

Muito cedo, antes que o dia clareasse, percebeu movimentos de vai e vem, como se procurassem arrumar algo em volta. Ao longe, conseguia decifrar o canto de um galo e o barulho de alguns saguis. Imaginou um quintal. Não conseguia outros detalhes; o dia apenas tentava aparecer. Mas o sol dificultava as coisas.

Finalmente o ambiente foi invadido de uma claridade radiante. Olhou em volta e percebeu que se acomodara em um tapete. Ali ficou, tendo o cuidado de trazer para junto de si um pouco de alimento. Apesar da aparente agressividade, ninguém esboçou movimento hostil. Decidiu ficar ali. Sabia ser uma forasteira. Também sabia esconder-se.

Percebendo-se desnuda, procurou elementos para elaborar sua vestimenta. Gostava do bege. E assim seria. Uma túnica grossa. E bege. De fora, somente a cabeça. Daquele jeito tentaria conseguir alimento, que se oferecia farto, logo descobriu. Difícil era se movimentar com aquela roupa tão apertada, mas achava natural que assim fosse.

Percebeu que tinha asas. Finalmente, chegara a hora de partir. Endireitou-se, esticou-se, respirou forte, olhou em volta e saiu. Ficaria em local seguro esperando a noite chegar. Não faria o que fez um jovem chamado Ícaro. Tomaria seus cuidados.

Antes um simples ovo, depois lagarta, em seguida pupa e finalmente uma pequenina borboleta. Mirando a janela aberta, lançou-se ao mundo com a força propulsora de suas asinhas. Foi!

Assim é a vida de uma traça.

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Texto da internet – As traças das roupas possuem um desenvolvimento biológico chamado metamorfose completa, ou seja, dos ovos nascem as lagartas (fase jovem) completamente distintas da fase adulta (mariposa). Em algumas espécies, as lagartas tecem um pequeno estojo achatado e elíptico para sua proteção. Dentro deste invólucro protetor, a lagarta se desenvolve alimentando-se avidamente de uma infinidade de materiais como tapetes, roupas de lã, tecidos, estofamentos, entre muitos outros. São facilmente identificáveis ao serem vistas deslocando-se pelas paredes ou armários residenciais. A lagarta, após algum tempo, transforma-se em pupa e logo depois em mariposa, fase adulta alada e com capacidade reprodutiva.


Responses

  1. Evaldo, eu, ser pensante, como teus outros seguidores, também me extasio com o valor atribuído, em teus textos, a seres irracionais e/ou inanimados, como fazes às traças. Acredito que estes, (‘entre eles’), reconhecem tamanha sensibilidade do escritor e agradecem a satisfação que lhes causas, só não maior que a nossa.
    Não gosto de traças, mas o texto ficou muito LINDO!
    Parabéns!

  2. lindo texto!

  3. Nobre colega.
    O final surpreendente, porém, posso estar enganado, ilógico. Caso o amigo investigue, as traças (Lepisma saccharina) são desprovidas de asas em toda sua existência. Caso o amigo finalizasse com um outro inseto, o texto ficaria melhor.
    Grande abraço.

  4. Caro Othon, a traça dos livros não tem asa. A traça das roupas, aquela que vive em todas as casas, essa se origina de uma pequenina borboleta, com asas (claro).


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