Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 17, 2015

DEUSES NÃO OLIMPIANOS

Na paisagem dos nossos campos, sempre áridos, mesmo nos períodos de chuva, destacam-se duas figuras pequenas, quase sem expressão. Uma, do reino animal, pequenina, de canelinhas finas. E sem canto. Ou o teria, e eu não conheço? A outra, do reino vegetal, utilizada geralmente para designar lugares depreciativos, como os antigos cabarés ou bairros pobres e afastados.

O massarico é designado como ave caradriiforme, da família dos caradriídeos – de bico alongado e fino e unha do dedo posterior alongada -, e pernas longas. Essas aves vivem nas praias marítimas, margens de rios e de lagoas, com as espécies massarico-d’água-doce, massarico-de-bico-torto, massarico-de-coleira, massarico-pequeno, massarico-preto e massarico-real.

O massarico tem um parente bem mais ilustre e conhecido: o tetéu ou quero-quero, ave que aparece nas transmissões esportivas atrapalhando os jogadores de futebol nos mais diferentes lugares do Brasil.

Em Areia Branca, os massaricos tentam escapar do solo inóspito e salgado, com seu voo a encantar aqueles que se aventuram pelos campos, praias, manguezais e áreas das salinas, com seu jeitinho bonito de voar e beliscar alguns vermes que se atrevem a dividir com eles a suprema glória de ali sobreviver.

O carrapicho é um subarbusto – não chega a ser um arbusto – da família das leguminosas e gramíneas, cujos pequenos frutos, que são vagens, se dividem em articulações, com pequenos espinhos ou pelos que aderem facilmente à roupa do homem e ao pelo dos animais, e penetram nos pés descalços.

O carrapicho – junto com a rosa-cera, entre outros – divide a supremacia da sobrevivência do reino vegetal em um local onde o salitre impera, o solo é árido e salgado, e quase sem vida. O carrapicho tenta escapar de seu habitat, e se prende na calça, na blusa, em qualquer lugar, querendo ir com a gente, grudadinho. Conta-se que um cientista arrancou dois carrapichos que estavam grudados em sua blusa, colocou-os em um microscópio e descobriu por que seu mecanismo de aderência era tão forte. Esse estudo resultou na criação do velcro.

Há outras plantinhas e outros animais que, como o massarico e o carrapicho, desdobram-se para se manter vivos em locais inóspitos, secos, salgados ou com qualquer outra característica nada convidativa, mas o prazer de observar o voo acrobático dos massaricos, seu pouso ligeiro sobre os carrapichos, beliscando aqui e ali, criam e recriam, há séculos, a beleza do visual de nossas várzeas salitradas e de nossos campos, onde o verde é desgastado por um robusto sol mais que vermelho e pelo vento quente que foge do mar.

MassaricoFoto da internet

Massarico e carrapicho. Deuses não olimpianos de nossas várzeas salitradas.


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