Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 11, 2015

AMORES A SETE CHAVES

Momentos de alegria, muitos; risos sem compromissos, em todos os momentos; mãos se conjugando no verbo apertar, sempre que possível; tudo mais, livre. Como guardar, trancar, acorrentar toda essa felicidade, na tentativa de um para sempre?

Saindo do Louvre, em uma tarde fria de Paris, depois de contemplar aquele pátio belíssimo, onde reina absoluta uma pirâmide de vidro, tomamos o rumo do rio Sena. Tardinha, momento em que as luzes da cidade são convocadas para substituir o sol, com a vantagem do eterno charme do claro-escuro que tinge de belo o que há pouco era invisível, por corriqueiro.

Em poucos minutos, o dia ainda guardando os resquícios do claro, o rio Sena exibia-se majestoso, com suas águas turvas, porém limpas, a servir de lastro para as centenas de embarcações multicoloridas, com seus holofotes a desafiar as luzes da cidade, em um quem-manda-mais movido a quilowats e leds.

Em nossa frente, uma ponte com piso de tábua. Não é uma ponte bonita, ornamentada por belas estátuas, comuns na Cidade Luz. Ao nos aproximarmos, uma surpresa, um encantamento. Em ambos os lados da Ponte dos Amores, muitos milhares de cadeados presos a uma tela, trancando um nada rico de suspeição. Um mundo de cadeados a trancar coisa alguma, nada acorrentando, nada contendo. Cadeados, apenas, presos ao nada?

cadeados

Ledo engano. São provas de amor, alguns para sempre, a maioria fugaz, com certeza. Os casais ali chegam, fazem suas juras de amor eterno, prendem o cadeado à cerca de ferro, trocam afagos e promessas de amores que durarão bem mais do que todo aquele arsenal de ferro e bronze ali travado, e as chaves… Ah, as chaves. Jogam-se fora? Cada um fica com uma cópia? Ou são atiradas no rio que passa logo abaixo? Não presenciei nenhum casal jogando fora o par de chaves, o elemento que tranca/destranca aquela prova de amor que supõem eterna.

E fiquei pensando nos amores que sequer chegaram a se formatar, por impossíveis, ou foram estraçalhados pelas forças do destino, mas nunca morreram, apesar de um suposto abortamento. Quantas calçadas, novas ou reformadas, foram riscadas em Areia Branca, pelos idos de 1950/60, na tentativa de eternizá-los?

Pensamentos, devaneios, divagações e soluços tiveram o condão de, para um sempre que dura somente até ali, desefemerizar os amores da infância, que ainda tocam nossos corações quando já os imaginávamos extintos. Vulcões da alma. Lavas lacrimais.

Na infância, calçadas marcadas com riscos que não são meus. Ponte dos amores, Paris. Lá, não deixei o meu. Tenho-o junto a mim.

Publicado no blog Era Uma Vez Em Areia Branca

Evaldooliveira

Médico Pediatra e Homeopata

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Ponte dos amores, Paris. Lá, não deixei o meu. TENHO-O JUNTO A MIM.

    Fechou a bela crônica com “chave de ouro”. Emocionante!

  2. Concordo plenamente contigo, Francisco de Assis Câmara! Belíssima conclusão de mais uma inconfundível crônica do Doutor de gente e das Letras.
    Um abraço!


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