Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 13, 2015

ACHO QUE FOI ASSIM

Assim, o sol, com sua coroa de fogo, se pôs ali, no cantinho do mundo, às turras com nuvens intrusas que dificultam sua marcha claudicante. Agora revolto, vermelho, irado, com ar de mando, tenta recolher-se contrariado, sabendo ser exigência da lua, vassoura prateada do sem fim, preparando-se para tanger restos de escuridão.

Assim, lua gris, noite feita em um céu sem nuvens – que ainda discutem com o sol, do outro lado do nada – caminha em busca do desconhecido, em conluio com estrelas soltas, o ócio artrítico dos milênios a lhes corroer as juntas.

Assim, o vento salitrado crepita nas várzeas, ecoando nas gamboas, resvalando nas falésias escurecidas por estranhos elementos – sombras da noite -, disputando força e poder com o mar bravio, que lhes cospe nos costados de quando em vez.

Assim, cataventos solitários rangem noite adentro, monstros de madeira e ferro, tangidos por um vento impaciente, estressado, que em sua desajeitada truculência – TDAH-Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade? – descabela a pobre berduelga (beldroega), que teima em florir, formigas a devorá-la sem pudor.

Assim, antigas salinas, no silêncio do depois do pôr do sol, espicham-se em seus baldes, em uma preguiça de quem trabalhou forte, desrespeitando calendários e cronômetros e, por isso, pele macerada e reumatismo nas dobras de seu imenso esqueleto.

Assim, no breu da noite com restos de luar, o rio Ivipanim, sorrateiro e silente, passa macio e se entrega ao mar, arrastando consigo o suor dos barcaceiros, redes e tralhas dos pescadores, fugindo para retornar mais forte, pelo impulso da maré, trazendo oferendas de todos os deuses.

Assim, a música que escapa pelas noites boêmias, ricocheteando nas folhas dos coqueiros dançantes, vazando por frestas viciadas de cigarro, resquícios de ânsias cansadas, esforços cobrados de uma noite sem frutos, plena de sombras, orgias e fortuitas traições, sinalizando vícios e pecados.

Assim, nas ruas com tracejados riscados por uma lua fugidia, de uma madrugada após usina desligada, onde corações anseiam por um nada, em um vazio sem glória, os passos de um bêbado despertam grilos marotos acoitados na sarjeta.

Assim, eu, Estrela Dalva, tento iluminar a infinitude dessa escuridão. Esforço inútil, hoje reconheço. Contentar-me-ei com a disposição do fazer.

Assim, o Farol de Upanema exaspera-se em seu mea culpa junto com a ansiedade, os dois à espera do barco que saiu na manhã quase escura, quando ele, farol, já dormia e, agora madrugada, ainda não retornou.

Assim, a água do mar chega ao catavento, que a entrega à canaleta que, aos borbotões, a empurra aos baldes; em seu descanso, surge o milagre do sal, que brilha pela força do sol e reluz sob os auspícios da lua, no outro lado do dia, e ouve calmamente o passar do vento da madrugada quente, quando os massaricos dormem no colo da relva áspera, travesseiro que tremula com a passagem de um calango apressado fugindo de um predador.

Assim, solitário, de olho no manguezal, fico aguardando que a maré de amanhã venha gorda, e traga de volta aquele peixinho cinza que certo dia beliscou meu pé, quando, sentado no cais, imaginava como decifrar o enigma do sol se escondendo na costela mindim da terra, pros lados de Tibau.

Assim, e do mesmo modo, a brisa foge do vento, que traz o cheiro da chuva, acalanto da terra, alimento vivo de plantas rasteiras e de cajueiros prenhos que em breve florirão, para a alegria das abelhas.

Hoje, imaginando cada um desses momentos, a dúvida se declara. Mas acho que foi assim.

– – –

Crônica publicada no blog Era Uma Vez Em Areia Branca

Evaldooliveira

Médico Pediatra e Homeopata

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Dr. Evaldo, o que dizer de TUDO isso?
    Quem escreveria um texto, assim, com tanta poesia senão você?!
    O desejo despertado é o de não parar de lê-lo.
    PARABÉNS!


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: