Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 17, 2015

MACONHA, COCAÍNA E CRACK

MACONHA, COCAÍNA E CRAQUE

Minha relação com as drogas ilícitas mais comuns é um caso sui generis para o Brasil de hoje, em que a droga invade lares, escolas, ruas, locais de trabalho, universidades e, até, circula pelo correio. Seja nacional ou do resto do mundo.

Nasci e me criei em uma cidade praiana, uma península, cercada de água por quase todos os lados. Na Rua da Frente, o rio Ivipanim era palco de amerrissagens de hidroaviões, e serviu de passarela para iates e veleiros de todos os mares, em um ambiente emoldurado por extensos manguezais. No depois da barra, grandes navios ancoravam para descarrego de mercadorias e recolhimento do sal marinho produzido ainda de forma artesanal.

Por volta dos catorze anos de idade, fui para Natal continuar meus estudos e cuidar do meu futuro. Estudei em colégios públicos, sempre, desde o primário até a Universidade.

Com dezoito anos de idade, fui trabalhar no Instituto de Medicina Legal e Criminalística-IML. Toda a droga apreendida no estado do Rio Grande do Norte era encaminhada para o IML, com a finalidade de se atestar a veracidade ou não do material apreendido. Desse modo, conheci a cocaína. De longe, acomodada em um armário que ficava atrás da minha mesa. Nunca aquele armário foi arrombado ou sofreu qualquer ameaça. Lembro de uma apreensão de uma quantidade de plantas de maconha verdinha, fresca, recém-colhida. Cortei uma folha e guardei no interior do livro que estava lendo. Um dia desses, retirando a poeira do meu livro de Propedêutica Médica, encontrei a folha inteira, ressecada, quase mumificada.

Durante o curso de Medicina, aqui e ali ouvíamos falar de alguém que havia fumado um cigarro de maconha. Mas o assunto era muito sigiloso, e passava quase desapercebido. Jamais ouvi algum comentário sobre o uso de cocaína pelos colegas de curso. Se havia, não chegava ao nosso conhecimento.

Alguns anos depois, já morando em Brasília, assisti pela televisão a um programa que entrava pela madrugada. Para minha surpresa, o repórter apresentava uma substância nova, e até ensinou como preparar o cachimbo. Desse modo conheci o craque. Depois fiquei sabendo que essa droga é uma conversão do cloridrato de cocaína para base livre através de sua mistura com bicarbonato de sódio e água, sendo a forma mais viciante de todas as drogas.

Atualmente, aos 70 anos, trabalho no Setor Comercial Sul, em Brasília, um dos pontos em que mais se utilizam drogas na cidade. Todas as manhãs, quando chego ao trabalho, por volta das seis horas e quarenta e cinco minutos, vislumbro uma plêiade de mortos-vivos, zumbis semi-vestidos, moças e rapazes, a caminhar de corpo dobrado, e com um palito na mão, procurando nas junções das pedras portuguesas do chão algum miligrama dessa terrível droga. No meio daquele grupo, uma criança de 12 anos é vista com muita frequência. Apesar de pisar sobre eventuais migalhas do crack jogadas fora durante a madrugada, quando o carro da polícia passa pelas ruas escuras do Setor Comercial Sul, com suas luzes de piscantes, jamais vi ou tive nas mãos uma pedra de crack.

Estou escrevendo este texto porque, hoje pela manhã, ao chegar para trabalhar, parei o carro em frente à empresa. Logo, ao meu lado, para um carro e um sujeito sai de trás de uma pilastra e pergunta quantas pedras. Três. São trinta reais. Entregou e retornou para seu posto atrás da coluna.

A vida inteira sem contato. Ontem.

Hoje, basta parar e aguardar que a droga vem. E rapidinho.


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