Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 14, 2015

DOIS BRASIS, AMBOS PEQUENOS

No início da década de 1820, um jovem país ensaiava seus primeiros passos no difícil caminho da independência, tangido pelos ventos libertários que sopravam da Europa, especialmente da França. Em 1776, a independência americana resultou na criação da primeira democracia republicana da história moderna, treze anos antes da queda da Bastilha.

Ao retornar a Lisboa em abril de 1821, o rei D. João VI providenciou que fossem raspados os cofres do Banco do Brasil e encaixotados às pressas o ouro, os diamantes e outras pedras preciosas estocadas no Tesouro.

Ao assumir o governo na condição de príncipe regente, nomeado pelo pai, D. Pedro encontrou os cofres vazios. “Não há dinheiro. Não sei o que hei de fazer”, queixava-se o jovem príncipe, de apenas 22 anos, a D. João VI. O príncipe também reclamava da corrupção e dos desmandos na administração do dinheiro público.

Na época da independência, o Brasil era uma colônia de analfabetos, isolada e controlada com rigor. No vasto rol de proibições, estavam a indústria gráfica e a publicação de jornais. A circulação de livros estava submetida a três instâncias de censura. O direito de reunião era vigiado. De cada cem brasileiros, menos de dez sabiam ler e escrever. Na província do Piauí, todos os 70.000 habitantes eram analfabetos.

O sonho dos brasileiros de 1822 era grandioso. Queriam libertar-se de três séculos de dependência de Portugal e erguer na América um vasto império – um dos maiores que a humanidade havia conhecido até então. Em 1822, o Brasil tinha cerca de quatro milhões de habitantes. Desse total, 800.000 eram índios, 1.000.000 era de brancos e 1.200.000 era de escravos. Havia ainda 1.000.000 de mulatos, pardos, caboclos e mestiços.

A biblioteca real, trazida de Portugal por D. João, com cerca de 60.000 volumes e obras raras, era uma das maiores do mundo. Situada em um país de gente analfabeta, vivia às moscas. Possuía as melhores obras literárias, científicas e filosóficas das nações civilizadas. Vivia deserta e desconhecida pelos brasileiros.

Em 1776, ano de sua independência o padrão de vida nos Estados Unidos já era superior ao de sua própria metrópole, a Inglaterra. A circulação de jornais chegava a três milhões de exemplares por ano, marca que o Brasil só atingiria dois séculos mais tarde. Lá, até os escravos eram alfabetizados. O índice de analfabetismo aproximava-se de zero. Havia nove universidades, incluindo a prestigiada Harvard, criada em 1686.

Brasil 2015, tão pequeno quanto em 1821.

E por motivos semelhantes.

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Dados e base do texto retirados do livro 1822, de Laurentino Gomes

Obs.: texto publicado anteriormente com título trocado.


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