Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 6, 2015

PRECONCEITO, DISCRIMINAÇÃO, e a fitossofrência

Ele estava ali, no meio dos outros, adolescente que era. Sem estímulos, nunca sorrira. Nascera bem no meio de uma colônia de abacateiros, que nessa época exibiam seus frutos de tonalidade verde escuro, de casca rugosa e de um brilho meio fosco, se é que isso existe. Flauber sonhava com o dia em que também pudesse ter seus próprios frutos.

Desde pequeno Flauber percebera que os abacateiros mais velhos não escondiam o ar de espanto quando olhavam em sua direção. Mas nunca ligou para essas e outras maledicências. Mas percebia que sua presença não era aceita de bom grado.

Naquele final de ano o jovem abacateiro notou que algo muito estranho acontecia em seu corpo, e mais uma vez percebeu que seus sinais externos eram diferentes do restante do grupo. Aceitou o comentário de Oirbós, um velho abacateiro seu vizinho, que se dispôs a dirigir-lhe a voz. Pausadamente, ele falou que, por ser a primeira vez que apresentava sua floração, os brotos florais poderiam apresentar algumas alterações que, com o passar dos anos, seriam corrigidas por si. Mas Flauber não conseguia escapar de sua atribulação, ao perceber que o tititi a seu respeito só aumentava, tornando-o o foco dos comentários da colônia. Deveria haver algo muito errado consigo, admitiu. Suas folhas eram esquisitas, seu tronco e as bifurcações dos galhos eram diferentes dos componentes da colônia. Era um ser estranho, e essa constatação deixou o jovem abacateiro muito triste.

Certa vez, o vento arrastara para perto de si uma foto. Na foto, um adesivo na parte de trás de um carro chamou sua atenção. Em uma cidade do interior de Portugal (Porto), um cirurgião de árvores oferecia seus serviços, mas ele não tinha ideia do paradeiro daquela fotografia. Com isso, ficava mais difícil localizar um profissional para resolver o seu problema, sua malformação.

Cirurgião de plantas

Logo os brotos esquisitos nas pontas dos galhos evoluíram, antecipando como seria a estamparia de suas flores. E ainda assim fora de época, pois não coincidia com a floração dos demais. A floração dos outros abacateiros ocorrera em julho e agosto, e os frutos já se foram. Já era início de novembro.

No final do mês, centenas de frutos estranhos abriam os olhinhos para o mundo, e todos perceberam que não eram abacates, mas belas mangas espadas. O cheiro gostoso e a incrível doçura do seu néctar logo se espalharam pela colônia.

– Viva! Viva! Gritaram alguns, conclamando toda a colônia para um congraçamento com aquela jovem mangueira que encantava a todos pela beleza de suas folhas e a doçura de seus frutos.

Regozijo, festa.

Uma bela mangueira. O reconhecimento.

E o primeiro sorriso de Flauber.


Responses

  1. Evaldo, em qualquer circunstância, reconheceria este texto como teu,
    À medida que se lê, confirma-se uma semelhança comportamental entre os seres, humano e vegetal; embora de forma suscetível, porém descrito por ti, parece-nos real. Foi desta forma interpretado por minha netinha de 7 anos, quando juntas lemos,
    Mais uma bela crônica para teu próximo livro, amigo. Parabéns!
    Um abraço.


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