Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 27, 2015

A PRIMEIRA LUZ, e um arco-íris perdido

Na cabeça, fragmentos de lembranças de um tempo bem distante. Em casa, na semiescuridão do escritório, essas lembranças aconteciam como ondas, com lapsos a ocultar detalhes que o tempo não mais conseguia atrair, como se nesses altos e baixos houvesse uma fuga de frequência. Eram coisas muito antigas, acontecidas em sua infância. Caminhar por praias de águas límpidas, vislumbrando ao longe o farol marítimo que até hoje orienta navegantes de todos os naipes e de todos os lugares, pescadores em seu movimento de vai e vem. Vai e vem da pescaria, ele completou em sua mente. Quis rir desta bobagem.

Um breve relaxar, mais um gole de vinho, discreto aumento da temperatura da alma e novamente a lembrança da pracinha, com o coro no meio. Ao final, imagens vagas de algumas retretas. Mas as lembranças eram muito antigas, de um primeiro momento que agora ressurgia desformatado, com falhas. Mas ela estava lá, com seu sorriso de arco-íris.

Relembrou momentos festivos, novenas na igreja matriz, reuniões na pracinha, passeios de bicicleta, caminhadas pela Rua da Frente, pros lados do Tirol. Sabia que o prédio do Cine Coronel Fausto fora substituído por uma parede muda. O que se esconde por trás daquele muro alto? Nem adiantava dar vida a essa pergunta.

O pensamento não evoluía. A lembrança não conseguia furar a carapaça do tempo e penetrar no âmago do passado. Desliga tudo. Nau do pensamento à deriva. Stop.

Baixou o olhar. No computador, no alto da tela, o título de um trabalho chamou sua atenção – A Mais Velha Luz do Universo. Tratava-se de uma publicação científica do Prof. Carlos Alberto dos Santos, professor visitante sênior da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), norte-riograndense. Na busca pelos dados pessoais do pesquisador, descobriu que ele era natural de Areia Branca, como ele.

Pousou os olhos na tela e iniciou sua leitura. Passava da meia noite. Resolveu ir em frente; o dia já era de sábado, com garantia de um passeio no Jardim Botânico para curtir um piquenique oferecido como café por um pequeno bistrô que ali funciona.

Na resenha do pesquisador, um comentário sobre o Big Bang, aquela explosão do universo primordial, esta sim, bem antiga, acontecida há 13 bilhões de anos. A partir de então surgiria o universo que hoje imaginamos conhecer.

Dessa explosão surgiria algo até então inexistente: a luz. Até hoje, a luz circula como testemunha do início do universo. A luz visível aos nossos olhos somente apareceria no cosmo 400 milhões de anos depois do Big Bang, coincidindo com o aparecimento das primeiras estrelas.

– Treze bilhões de anos sendo revirados pelo avesso, e eu aqui com dificuldade de lembrar de minhas traquinagens de 60 anos atrás – percebeu que falava para ele mesmo escutar. E riu com sua rabugice.

Tomou mais uma taça de vinho e foi dormir.

“Ela estava lá, com seu sorriso de arco-íris, e eu sequer lembro seu nome”, falou para si antes de deitar.


Responses

  1. Parabéns!
    Tendo tanto a ver comigo, parece feita para mim…
    Mas, que é que não algum sorriso de arco-íris esquecido lá no comecinho?
    Cada vez melhor, caríssimo Evaldo!
    Grato,
    Garoeiro

  2. Quando em AB estive e deparei-me com aquele triste muro no local do Cine Cel Fausto. Belíssima crônica.
    Grande abraço.

  3. Diante da belíssima crônica, quero expressar a minha indignação quando, na visita à cidade natal, deparei-me com aquela horrenda imagem, um muro sem serventia no local onde funcionou o Cine Cel Fausto, de saudosa memória. Aliado a isto, as casas, quase todas gradeadas, nada restando do que foram no passado… quando retratavam vidas multifacetadas, (no sentido real).
    Quanto à memória, és privilegiado pelas lembranças que acumulas frente às falhas que a minha apresenta. Mesmo assim, acredito ser impossível não lembrar-me de algo que se assemelhe a um arco-íris, fenômeno que, até então, me extasia ao vislumbrá-lo.
    Que tua fonte inspiradora nunca se esgote, pois teus escritos nos fazem muito bem. E somos gratos.
    Um abraço.

  4. DR Evaldo , todos nos temos aquela sombra sem nome que tem um sorriso parecido com o arco -iris que nao conseguimos lembrar do nome Frutos de uma infancia e juventude feliz, onde o melhor da vida ficou. Quanto a mim o nome do cine Coronel Fausto, esta gravado na minha memoria com letras de fogo que nunca irao apagar. Como esquecer de tudo que se passou naquela casa de espetaculo?Impossivel.. Menina de 14 anos com vestido longo de organdi cor de rosa que naquele tempo chamavam tomara que caia.
    Cabelos caindo aos ombros e as luzes dos holofotes, iluminando o palco. A casa cheia.
    Nem uma cadeira vazia.
    E aqui eu, com a responsabilidade de cantar as musicas de Nora Ney para a plateia que esperava o melhor.. O povo de Areia Branca era exigente, e no outro dia seria o comentario de toda a cidade.
    Tinham pago um bom dinheiro pelo ticket para assistirem o espetaculo . Era uma festa organizada por Maria Adehil e seu esposo Chico de Boquinha. O dinheiro era para o levantamento do alicerce do predio onde seria erguido a primeira Maternidade de AB.
    Entao pergunto: Eu, Como poderie esquecer estes preciosos momentos da minha mocidade , ?Como poderei esquecer o Cinema Coronel fausto?E como poderei esquecer aquele sorriso parecido com de arco -iris ,aquele rosto que me olhava e sorria quando eu cantava?O Muro que ergueram no local do Cinema Coronel Fausto e para proteger estas lembramcas.E para que elas nao fujam e nao saiam dali porque sao muito preciosas.
    Obrigada por mais uma linda cronica. .O senhor e fenomenal


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