Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 20, 2015

EM PRAGA, UM CORPO ESTENDIDO

O dia fora intenso. Turista de primeira viagem internacional, Flávio passara o dia batendo perna, a extasiar-se com as belezas da cidade. Com o seu grupo, atravessara a ponte Carlos, construída em homenagem a Carlos IV, Sacro Imperador Romano-Germânico no século XVI. Instigado pelo guia local, ficara estático em um lugar alto, com uma visão privilegiada, tendo ao fundo o rio Moldava. Começara a contar quantas torres havia em Praga. Com um caderninho, já estava na ducentésima primeira e ainda havia muito o que anotar. Prometeu a si mesmo que voltaria no dia seguinte.

Praga, rio Moldava ao fundoPraga, o rio Moldava ao fundo

Mais tarde, no hotel, após o almoço, tomou seu livro guia de viagem e ficou irritado com o que lia em um canto da sala de espera. Praga é conhecida como a cidade das torres. Em conversa com o pessoal da recepção, ficou sabendo que um poeta resolvera contar quantas torres havia na cidade. Ele tomou um bloco de anotações e começou a contar e anotar as características das torres que conseguia avistar. Três dias depois, quando estava no número 595, desistiu. Dizem que até hoje caminha pelas ruas da capital da República Tcheca resmungando e repetindo aos turros: seiscentas e quanto?

Acho que foi essa descoberta que deixou Flávio macambúzio, sem que, no entanto, tenha comentado qualquer coisa com o guia sem noção. Afinal, passaria apenas sete dias na cidade, e havia muito a ser conhecido.

À tarde, com duas pessoas do grupo, fez uma série de visitas. Já fora à igreja de Nossa Senhora Diante de Týn, que à noite assume uma beleza resplandecente. Um detalhe: você vê a igreja e suas torres, mas não sua entrada. Sua porta, que não se vê, você acessa através de um desses edifícios à direita.

Igreja DIAIgreja de dia

Igreja NOITEIgreja à noite

Na sequência, conhecera o Relógio Astronômico e finalmente caminharia pela rua onde havia morado Kafka, escritor de uma de suas primeiras leituras na adolescência. Não gostava de lembrar da desmornência entre o couro e a carne que sentia toda vez que, à noite, tentava imaginar Gregor com seu corpo de inseto. Imaginava como podia um livro daquele ter sido escrito em apenas vinte dias, e no ano de 1912, com todas as dificuldades que se imagina para a época. E ria ao lembrar a carta escrita por Kafka – escritor tcheco de língua alemã – para sua noiva dizendo: Minha pequena história (Die Verwandlung em alemão) está terminada. Flávio se lamentava por não ter conseguido sequer contar a metade das torres da cidade

A noite foi recheada de sonhos terríveis. Viu-se envolvido em correrias por ruelas estreitas e escuras, pessoas fugidias sumindo por ruas desconhecidas. E pela primeira vez sonhara com a repugnante barata gigante.

Pela manhã, Flávio ficou deitado na cama, olhando para a luz do dia que teimava em penetrar pelas pequenas frestas, com seus dedinhos amarelados. Foi ao banheiro. À sua frente, um ser com todos os membros estendidos na lateral do corpo, esparramado. Não havia sinais de violência. Analisou com o instinto de um médico legista. O corpo estava caído em uma pequena poça d’água já quase seca. Resolveu arrumar seus pertences, que deixara espalhados pelo quarto. Sabia que teria mais um dia de caminhadas. Ao retornar ao banheiro, constatou que o corpo estendido ali já não se encontrava.

No canto da bancada, ao lado da pia, percebeu que outras duas formigas tratavam de resgatar seu semelhante com os membros estendidos.

Finalmente, Flávio sorriu. Uma bela manhã de sol o esperava.


Responses

  1. CARO EVALDO,
    Seus texto estão excelentes. Pegam a gente e não largam.
    Continue, por favor.
    No meio de tanta coisa tola, tornam-se um privilégio.
    Afetuoso abraço,
    geniberto

  2. Praga. Uma das minhas cidades favoritas da Europa.
    Fui previlegiada , pelo fato que cheguei em Praga justamente na semana que se comemora a Pascoa. A cidade estava em festa. O Hotel era apenas 10 minutos caminhando do centro onde tinha Bazar , lojas ,restaurants e todas as comemoracoes. Havia rodas de jovens cantando e dancando. Visitei o Castelo duas vezes porque queria ter certeza que tinha visto tudo, Assisti duas Operas, e ir a Opera para os residents da cidade e como ir ao cinema. Voce percebe que a maioria das pessoas estavam vestidas como tivessem saido do escritorio direto para o espetaculo Com excessao dos turistas, todos agiam com se isto fosse um habito cotidiano. Praga e uma cidade maravilhosa e agora com esta cronica tao bem escrita, que me leva novamente a caminhar naquelas ruas de arquitetura fabulosa, tenho que agradecer novamente ao Dr Evaldo por nos presentear com seus textos e conhecimentos que enriquecem a nossa vida.


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