Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 22, 2015

ZILEF E A BONDADE DOS SERES HUMANOS

Zilef era um siri inexperiente. Gostava de brincar na beira da praia, onde as ondas eram pequeninas, quase da sua altura. Seus amigos faziam gozação, porque ele não se aventurava nas fortes ondas, não corria riscos, evitando as águas mais profundas. Para nadar, utilizava as duas patas traseiras, alargadas, impulsionando seu corpinho sobre as ondas, que para ele eram muito grandes. Algumas vezes ficou virado de costas, tendo que esperar o retorno da onda para se endireitar e começar a planar novamente.

Zilef nasceu na Praia do Meio, vendo ao longe o farol de Upanema, de um lado, e a entrada da barra, do outro, mas não gostava de olhar para este lado, porque ouvira falar de siris que haviam desaparecido depois de cruzar aquela entrada, e ele preferia olhar para os lados de Upanema

Foi em uma dessas olhadas que viu algo muito estranho: havia água caindo sobre a água. Curioso, pôs a boca para fora e provou daquele líquido gelado e de gosto estranho que caía do nada. Ao longe ouviu uns estrondos e uns clarões rasgando o céu, e ficou com medo.

Por essa época, percebeu um movimento silencioso entre os adultos. Segredos ao pé do ouvido. Pensou ser um protesto a ser liderado, mas entendeu tratar-se de uma viagem. Zoref, seu primo mais velho, que gostava de brincar em águas profundas, aproximou-se e fez o convite:

– Zilef, partiremos amanhã. Quando a maré baixar, estaremos na entrada da barra e, quando o mar invadir o rio, iremos juntos. Vamos conhecer Areia Branca, Barra e Pernambuquinho. Quem sabe, conheceremos Grossos. Vem com a gente?

O pequeno siri não queria abandonar o lugar onde nascera. Não entendia essa estória de maré baixa, invasão do mar, além de ter que enfrentar uma água que, ouvira falar, era salobra. Mas havia decidido: iria com Zoref e seu grupo. Difícil foi se despedir de Ahniziris, uma amiguinha que conhecera quando tentava surfar grandes ondas, à tarde, e ficara se exibindo, nadando para lá e para cá, em um local a meio caminho entre a Praia do Meio e Upanema. Fora uma experiência tridimensional: afastara-se de casa, surfara grandes ondas e se apaixonara.

Na madrugada, todos reunidos na entrada da barra, o coraçãozinho de Zilef a mil. Ao sinal de Zoref, todos se largaram e aproveitaram a força do mar penetrando no rio, e se deixaram levar. O mais experiente do grupo era Zoref, que jurava já ter ido algumas vezes até a prainha de Zé Filgueira.

Zilef entregou-se ao prazer de ser levado pela correnteza, seguindo o exemplo dos outros. Apenas manobrava suas patinhas traseiras, para não perder o rumo. Não gostou nem um pouco daquela água amarelada, de sabor horrível e com um ligeiro gosto de óleo queimado. Por isso fazia caretas. No caminho, lembrou-se de Ahniziris, e riu de seu modo desajeitado ao se despedir.

Quando o dia amanheceu, vislumbraram a Rua da Frente e, ao longe, a torre da igreja. Que bonito! Que bela torre! O sino tocou. Era puro encantamento. Deliciou-se ao contemplar as canoas, com suas velas triangulares. As embarcações apitavam ao passarem umas pelas outras. O grupo continuava unido, cada um cuidando do companheiro ao lado. Zilef percebeu que alguns se perderam pelo caminho, mas estava cansado, e era muito pequeno para assumir esse tipo de responsabilidade.

Era quase meio dia quando finalmente chegaram. A maré estava cheia. Estavam exaustos e com fome. Olhou para a Rampa e vislumbrou dois barcos dos beijus, com seu festival de odores de frutas, rapadura e alguns animais no convés. No cais, um garoto segurava uma pequena vara com um cordão comprido amarrado em uma das pontas, e na extremidade do cordão havia um pedaço de carne. Como são boas as pessoas – pensou Zilef. O garoto sabe que eu estou com fome e está me oferecendo carne, minha comida preferida. E beliscou o naco de carne. Que maravilha! Pela primeira vez alguém punha carne à sua disposição. Seu coração regozijou-se. Aquele garoto gostava mesmo dele, pois puxou a linha e colocou Zilef em um recipiente, junto com outros siris. Pensou na bondade dogaroto. Esqueceu o restante do grupo, e ficou calado, admirando seus companheiros fazendo espuminha pela boca. Um dia aprenderia a fazer aquilo.

O sirizinho posicionou-se em um lugar mais alto, colocando-se sobre os outros. Pôs os olhinhos para fora e viu uma pracinha bonita, logo atrás da igreja. Chegaram a uma casa que ficava na segunda rua. Zilef, juntamente com os outros siris, foi colocado em outro recipiente com água, que tinha o mesmo gosto daquela que caíra do céu, lá na praia. Percebeu que colocaram sal – para manter a salinidade da água – pensou. Gostou da gentileza, e se regozijou com a bondade das pessoas. Percebeu que a água estava ficando morna, e vibrou de emoção. Ficou planando na superfície, e deu duas cambalhotas. Tinha muitas novidades para contar a Ahniziris. Abriu os olhinhos e percebeu que os outros estavam tristes. Mas por quê? Estavam em uma água salgada, morninha, e nem sequer festejavam? E a água foi ficando mais quentinha, mais gostosa… Como os seres humanos são bons, imaginou Zilef.

Zoref e seu grupo procuraram Zilef pelo resto da tarde, pois sabiam que a maré baixaria, e eles tinham que aproveitar para retornar, fazendo o caminho inverso.

No dia seguinte, no local onde na véspera o aventureiro surfara grandes ondas, havia uma palavra escrita na areia, feita com pequenas patas, escrita na linguagem dos siris, com um toque feminino:

Zilef, te amo!


Responses

  1. Caríssimo Dr. Evaldo,
    Parabéns!
    Esse seu doce, porém, trágico Zilef, deixou-me triste e feliz…
    Garoeiro

  2. Amigo e criativo Evaldo, você está “refinando” suas crônicas. Zíper emociona.
    Estou em Lisboa, e depois de um dia especial, voltei ao hotel para repousar. Abri o iPad e fui lendo suas crônicas, não lidas antes por não dispor de sinal no sítio.
    Mas, voltando à crônica, você, através de um ingênuo Siri, conduz o leitor a um final inesperado, muito belo e triste. É que as tragédias, como paradoxo, têm seu encanto. Não è à toa que o teatro grego, por suas tragédias, é pedagógico, formativo. Parabéns e obrigado. Vale pensar em editár um novo livro para que Zilef possa ser mais Feliz.


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