Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 16, 2015

AHNIAT E OS TUBARÕES

Ahniat era um peixe corajoso, e gostava de demonstrar sua bravura provocando os tubarões que habitam a praia de Upanema, em Areia Branca. De uma cor branco nacarado, quase prata, Ahniat tinha um brilho especial nas escamas, o que o tornava estrela daquela região das águas rasas.

A técnica utilizada pela tainha para provocar os pequenos tubarões era conhecida. Iniciava sua provocação planando altaneira até a região de média profundidade, saracoteava, saltava e dava gritinhos finos, no limite dos ultrassons, e retornava a toda velocidade no sentido da praia, já na região dos pequenos peixes e dos siris.

O tumulto se expandia por toda a região, com os pequenos tubarões, em suas primeiras investidas na direção da praia, região das águas rasas, ficavam assustados, davam meia volta e retornavam para a região das águas de média e alta profundidade, onde há muitos anos seus parentes reinavam quase absolutos.

Esses eventos de provocação, de um lado, e de desproporcional reação do outro lado se repetiam ao longo de todo o verão, deixando aterrorizados os moradores da região das águas rasas, que não concordavam com as investidas de Ahniat em sua mania provocativa e perigosa contra elementos de outras regiões.

No verão seguinte, na flor de seus três anos de vida, Ahniat exibia-se provocando os tubarões que imaginava ainda em tamanho reduzido. Naquele meio dia do início de janeiro, a água do mar estava transparente, com uma tonalidade ligeiramente esverdeada, e o cheiro de sargaços tomava conta da região da beira mar. Aqui e ali, sirizinhos de casco cinza exibiam-se mexendo suas nadadeiras no chão, levantando um pouco de areia para chamar a atenção de outros grupinhos de siris.

De repente, um movimento brusco espalhava água de forma violenta, evento nunca percebido naquela região de águas rasas. Alguns tubarões de médio volume invadiram o recanto até ali pacato dos siris e dos pequenos peixes. Na frente, resfolegante e desesperada, Ahniat tentava escapar das inúmeras bocas escancaradas em sua direção, recheadas de dentes em serra, em uma velocidade muito superior às condições da pobre tainha. De quebra, os jovens tubarões dizimaram quase todos os pequenos peixes que moravam na região, em uma carnificina jamais ocorrida no território das águas rasas.

No final da tarde, após reunião emergencial dos moradores da região das águas rasas, o balanço da brutalidade: dezenas de peixinhos desaparecidos, siris com lesões pelo corpo, alguns faltando uma das patinhas, dois peixinhos sem cauda e um com uma mordida no dorso, o que dificultava sua movimentação.

No momento, a AMAR – Associação dos Moradores da Região das Águas Rasas – está reunida para discussão da pauta: pode a ação individualizada de elementos da região das águas rasas, com finalidades provocativas ou bélicas, na direção das águas médias e profundas, ser perpetrada sem a participação dos demais moradores?

No dia seguinte, na beira da praia, escamas de cor branco nacarado reluziam à luz de um sol abrasador, no vai e vem das pequenas marolas.

A reunião ainda não terminou.


Responses

  1. Caríssimo Doutor Evaldo,
    Seu novo site está soberbo!
    Agora, este seu “Ahniat”, arrasou!
    Parabéns!
    Estamos aí!
    Gostaria de ler uma crônica onde o menino Evaldo ficava olhando aquelas visões mágicas dos velhos e perdidos carnavais… Ouvindo aquela enorme sonoridade do prazer…
    Abraço,
    Garoeiro


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