Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 7, 2014

NOS CAMINHOS DE PARACELSO, o arauto da contestação

Sabe-se que por volta do ano de 1535 Paracelso – o médico e alquimista que se tornou amigo de Nostradamus e Lutero, nascido em um cantão suíço no ano de 1493 – passou por Portugal, quando de suas andanças em busca da pedra filosofal.

Em maio de 2003, presenciei o gelo das montanhas da Europa iniciando seu movimento para engordar os regatos – repleção da natureza -, o rio a esperá-los, anunciando o despertar da primavera, com sua pontualidade cósmica. A claridade das cores e a alegria das pessoas vieram juntas, abrindo mão de um convite formal. Ali, sentia – por puro instinto – que estava seguindo passos de 1535.

Trago comigo a teimosia areiabranquense, ranzinza e tisnada pelo salitre trazido pelos ventos que agitam os topetes das inocentes berdruelgas, em seu esconderijo varzeano. Foi com essa mesma árida teimosia que havia decidido seguir os passos de Teophrastus Bombastus von Hohenhein – o Paracelso – em território português. Nem sei por que tinha escolhido aquele roteiro, mas havia uma lógica em meus pressentimentos; só depois saberia.

Saímos de Lisboa pela manhã, em um ônibus de turismo, direto para Coimbra, onde visitamos sua bela Universidade, subindo pelo Arco da Almedina. No dia seguinte, seguimos para a cidade do Porto. Dois dias depois, continuamos no sentido norte, no rumo de Braga, com os ajustes do nosso GPS cerebral programados para a região de Trás Os Montes, tendo como ponto futuro a maravilhosa catedral de Santiago de Compostela, na Espanha.

Ao chegar em Braga, atravessei um portal do século XVI – Arco da Porta Nova – emoldurando uma bonita via para pedestres. A surpresa foi descobrir uma bela cidade, pequenina, formosa, com o invólucro do tempo a acariciá-la, sob laços de fita descoloridos pelo tempo. Tomei o rumo da praça principal, e mais uma surpresa agradável me esperava.

braga-portugal

Ao lado da praça, muito bem cuidada, erguia-se, uma bela fortaleza, com a austeridade trazida dos recônditos medievais. Impressionante, grandiosa. Majestosa. Sua visão conduziu-me a um mundo de magia e encantamento. Ali, uma fortaleza – de fato, um castelo da Idade Média – de pedra, símbolo de força e poder, onde a história se esconde em cada fresta. Calada, impoluta, grandiosa. Logo, imaginei-me correndo por seus labirintos, como se menino fosse.

castelo-braga-portugal1

Chegando ao centro da cidade, uma visão inacreditável, estapafúrdia, bizarra. No alto de um pedestal, a figura de um homem morcego nos afrontava com sua face emblemática e aterrorizante, fixando seus olhos de ferro no vazio do meio dia, feito Nosferatu – o Conde Orlok – saído do submundo escuro de nossa imaginação. Não sei por que, mas acho que estou nos passos de Paracelso, pensei.

homem-morcego-ii

A certeza de que o caminho era aquele viria na Catedral de Santiago de Compostela, sob a fumaça e a magia do incenso espargido por um monumental turíbulo, preso ao teto da igreja e acionado por três homens.

Um pedestal. Um homem-morcego. Um enigma.


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