Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 31, 2014

ODE À SABEDORIA – Para ser sábio há que ter espírito de criança?

Pouquíssimas vezes estive em Recife, a bela capital de Pernambuco. Em um ano da década de 1980, caminhava pelo centro da cidade quando ouvi, do outro lado da rua, uma voz conhecida atrapalhando o trânsito, cesariando o barulho:

– Evaldo! Evaldo!

Mãos em agitação, elemento identificado. Dali a meia hora, depois de um cafezinho, e cedendo a uma sugestão do meu amigo, estávamos descalçando os sapatos e as meias, dobrando as pernas da calça e atravessando a rua. Como havíamos combinado, um puxava o outro pela camisa – os dois sempre de olhos no sinal – e o obrigava a retornar, como fariam dois caipiras, outrora chamados de beradeiros, que jamais tinham visto um sinal de trânsito. Os motoristas, parados no sinal fechado, gritavam impropérios. De volta à calçada, muitos risos. E fizemos a mesma coisa em outro sinal mais à frente. Novos risos, abraços compensando alguns anos de não encontro. Mais tarde, retornaria com meu amigo para Natal.

Meu amigo iniciou sua carreira profissional como advogado em uma pequena cidade do interior. Uma vez por semana, energizado pelos primeiros raios da manhã, apanhava um ônibus, onde já viajavam pessoas de pé, e se dirigia à cidade onde trabalhava, segurando sua pasta de documentos. Com o tempo, desenvolveu uma técnica para viajar dormindo, sem largar a barra de ferro no teto, onde se segurava, nem deixar cair seus processos. Assim, chegava ao seu destino em melhores condições físicas e psicológicas, pois não percebia a movimentação dos pequenos animais que eram embarcados durante o caminho.

Em outra ocasião, depois de uma viagem de trabalho a Salvador, que durou uma semana, onde pontuaram fortes debates, discussões acaloradas, questões de ordem, discordâncias e aprovações, a tensão e o desgaste permeando momentos e ocasiões, meu amigo retornava para sua cidade, com alguns colegas de procuradoria no carro. No calor típico da agitada capital baiana, dirigiam-se por uma rua principal quando, de repente, meu amigo parou o carro e perguntou para um rapaz que estava esperando ônibus:

– Por favor, onde fica a praça João Manoel Dourado (seu nome, aqui, fictício).

O rapaz, de forma cordial, sorridente, emendou:

– O senhor entra na próxima esquina à direita, passa por um posto da polícia e logo em seguida, à sua esquerda, fica a praça João Manoel Dourado.

Todos riram, e algumas horas depois tomavam banho em uma praia de Aracaju.

Um homem de respeito, duas vezes secretário de estado, procurador do estado. Ao seu lado, compartilhando desses momentos, um jovem médico que embarcou de corpo e alma nesses momentos criança.

Em seu sítio, reina entre árvores frutíferas, ninfas, deuses e semideuses, em meio a muitos poemas, alguns expostos em painéis. Ali, comi castanha de caju assada na hora.

Viagem à infância.


Responses

  1. Evaldo, merecida e justa a homenagem que fazes a esse homem sério que tive o prazer de conhecê-lo e de descobrir que, como tu, também é possuidor de um espírito pueril.
    Sua trajetória de vida honrada justifica suas vitórias e a ocupação de postos que condizem com sua competência.
    Foi pouco o tempo de convivência com Assis, mas suficiente para reconhecer nele a sensibilidade de um homem-poeta de um coração grandioso que desperta empatia aos que dele se aproximam. Fato comprovado quando de sua reação diante daquele infortúnio, presenciado por nós (assassinato em via pública), e o choro silencioso e incontrolável, mesmo sem conhecer a vítima e os envolvidos nessa tragédia.
    Teu amigo me cativou, Evaldo e muito me alegra ter me tornado amiga de alguém tão especial. Quem sabe um dia, provarei também da castanha de caju assada na hora!
    Parabéns, pela bela crônica e meu grande abraço.
    Sônia

  2. Esse “cara” sou eu. Massssss, que recordação… Lembro, também nossas aventuras nas estradas, atentos para as placas de “sigueiro” e “pareiro”. Chegamos a indagar: como fica a carteira profissional de quem segura placas de “pare” e “siga”?
    Bons tempos aqueles, em que os filhos riam de nossas loucuras…

  3. Evaldo, peço licença – e desculpas – para dizer que os comentários de Sônia, a meu respeito, são lidos na mesma partitura onde você solfejou o hino à amizade. Estou emocionado. Entre nós foi construída uma história. Mas Sônia… apenas três dias de convivência e a sensibilidade feminina aflora entre o mistério e a poesia. Só tenho a repetir com o centurião: “Domine, non sum dignus!”
    Abraço os dois nessa trindade fraterna.


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