Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 24, 2014

O TELESCÓPIO HUBBLE E O SONHO DAS CRIANÇAS

Sabemos todos que o por do sol – também conhecido pelo apelido de ocaso – é o momento em que o sol se oculta no horizonte, na direção oeste. Quando criança, imaginava que o por do sol demorava o tempo que eu quisesse. Era só ficar olhando, sem desviar a atenção, no final da tarde, que ele vinha caladinho, devagar, com jeito de quem procurava colo, chegava perto do horizonte, por trás daquele barquinho que se esqueceu de recolher a vela, na saída da barra, e se escondia lá pras bandas de Tibau. Sempre achei que era na praia de Tibau que o sol se escondia. Mas se a gente fixasse os olhos nele, quando já estivesse pertinho do chão, ele parava um pouco, reluzia em todas as areias coloridas das falésias e ficava ali, exibindo-se por um bom tempo. E também aumentava de tamanho. Eu pensava que ele ficava parado por minha causa.

Em um final de tarde, presenciava, da beira do cais, em frente à minha casa, algumas barcaças passarem ao largo, trocando acenos com um iate movido a velas que se esgueirava para ancorar no meio do rio Ivipanim. Um rebocador, expelindo óleo queimado pelas narinas, foi se aproximando e, de forma claramente exibida, apitou seu grito áspero, em dó, parecendo avisar que aquele pedaço tinha dono. Mas foi embora, não sem antes emitir outro apito, agora em mi, que entendi como pedido de desculpa. Mas eu não entendo bem a linguagem das máquinas.

Aproveitei a maré cheia – em preamar – e sentei-me no cais, com os pés nas águas mornas do rio, e fiquei olhando o sol. Fui tirado do encantamento quando um peixinho de cara arredondada beliscou o dedo do meu pé, que mais parecia um biscoito de polvilho, de tão branco e engilhado, e se retirou com os olhinhos voltados para mim. O sol foi baixando devagarzinho, com ar de recolhimento, e de repente ficou escondido atrás das velas do iate, e eu o acompanhei pela transparência do tecido; quando se livrou da vela, surgiu uma canoa arfante, lá longe, no horizonte, com sua vela triangular escurecida pelo tempo. Pela pressa, imaginei que a canoa pensava ser aquela a sua última viagem do dia, e, por alguns segundos, encobrira o meu sol por pura pirraça.

E o peixinho de cara arredondada ainda estava em volta do meu pé, talvez fazendo hora para o momento do lanche. Hoje, sei que o sol ainda pode ser visto mesmo depois de já ter se escondido atrás do horizonte – e aumenta de tamaho – graças a um fenômeno (desvio da luz) produzido pela atmosfera. Então era por isso que o meu por do sol durava mais que o normal, e o meu sol era tão grande.

Espero que nenhuma criança leia esta parte do texto, para não quebrar o encanto. Alguns adultos ainda imaginam que todos os pores de sol são iguais, com o astro-rei se recolhendo de forma preguiçosa, até chegar ao sono profundo, rendendo-se à força da escuridão, que surge sorrateira. Talvez já tenham pensado, até, em fazer uma polissonografia estelar, utilizando-se do Telescópio Espacial Hubble – um intruso que xereta o universo – para analisar o sono do sol, se calmo ou inquieto, se ronca, se tem crises de apneia ou a síndrome das pernas agitadas, ou outro distúrbio próprio dos elementos estressados.

Esses adultos talvez não tenham tido a sorte de se sentar em um cais, na frente de casa, em plena maré de sizígea, e ficar vendo os barcos passar.

E o peixinho voltou para beliscar o dedo do meu pé. O sonho jamais acabará, apesar do Hubble.


Responses

  1. Evaldo, estou de volta ao seu blog. Saudações Candango/Potiguares.
    Estive algumas vezes, quando menino, no cais de Areia Branca, provavelmente no mesmo lugar em que você relata sua visão do por do sol “mágico”, segundo sua visão infantil. Saiba que o sentimento de menino relatado por você tem muito mais significado para mim, do que a descrição científica derivada daquilo que captou as lentes do Hubble. É certo que computadores poderosos interpretam as imagens capturadas e promovem uma descrição, tecnicamente impecável, do fenômeno. Mas a imagem captada pelos olhos do menino foram processadas por um ser humano inocente (uma criança) e produziram um sentimento que nenhum computador é capaz de produzir. Acredito que os sentimentos do menino Evaldo foram gravados em seu coração pelo próprio Criador. Afinal de contas os personagens envolvidos nessa narrativa são: O menino, o sol, o rio, o céu, o mar, o peixinho…Tudo obra das mãos de Deus.

    “E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus.”
    (Palavras de Jesus, cfe. Mt 18.3).

  2. Evaldo, tudo já foi explanado sobre teu texto, através das precisas palavras deste (inteligente) Sr.Guilherme, nesta admirável apreciação. Reafirmo o que dissera, em um dos comentários anteriores, que teus escritos têm realmente algo de divino.
    Relatas hoje o que viveste há anos, com a mesma autenticidade daquele momento mágico, como se tivesse sido “salvo” na memória de um computador. E o foi… em tua excepcional memória, aliada ao indiscutível sentimento que nutres pela terrinha de areias brancas e águas salgadas.
    Amei o texto o qual leio e releio, incansavelmente. Encantada com a técnica que usaste, metaforicamente, atribuindo aos irracionais e/ou seres inanimados sentimentos humanos – a prosopopeia – recurso este que concede mais brilho à narrativa. É crescente minha admiração pelo menino de ontem, homem-menino de hoje…Que Deus te conserve assim, repleto de
    bons sentimentos.
    Um abraço.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: