Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 8, 2014

A REVOLTA DOS ANÔNIMOS

A Associação dos Seres do Rés-do-Chão, percebendo o crescente nível de tensão entre os moradores da Várzea do Catavento, convidou os indivíduos da comunidade para uma reunião urgente. Nela, seriam discutidos os problemas das plantas rasteiras e dos animais de pequeníssimo porte. Pirrixiu ergueu o braço. Palavra concedida.

– Os tempos são outros, todos concordam. Nas cidades, no campo, nas várzeas ou nos manguezais, todos clamam por mudanças! Nesses ambientes, somente os grandes têm vez e voz. Esse clima, essa atmosfera de insatisfação, propicia o surgimento de uma tese sempre defendida por aqui. Chegou a hora de uma reação dos marginalizados, nós, seres de várzeas e gamboas.

Na várzea, a noite estava quente. O vento úmido que vinha do mar resvalava por sobre os seres do rés- do-chão, acompanhado de um assobio salitrado que dificultava mais e mais a sobrevivëncia desses elementos varzeanos. Do alto de uma pequena elevação, Pirrixiu – refletindo o apoio dos presentes -, com sua fama de subarbusto produtor de toxinas, pertencente à grande família das leguminosas e gramíneas, juntou suas folhinhas em torno de uma flor, no alto de seu último galho, e berrou em tom herbáceo:

– Convoco, neste momento, o professor Desmodium adscendens, que bem sabemos ter servido de base para a produção do velcro, para que se junte ao nosso movimento, que espero seja pacífico até o fim.

Desmodium adscendens – conhecido como carrapicho – ressaltou, em tom áspero e espinhoso:

– Obrigado pela lembrança do meu nome. Nós, os do rés-do-chão, temos o dever herbaceo de nos defender da pressão exercida pelos grandões, os cajueiros do mato em especial. Vejam todos que debaixo da copa desses elementos não há lugar para nós, plantas rasteiras! Do meu lado, vou afiar meus espinhos e ferroar, sem dó, qualquer ellemento que de mim se aproxime. Sem trégua, me prenderei a raízes, caules, calças e blusas. Vou junto, grudado, ferroando.

Nesse momento, alguém bate à porta, digo, à folha da beldroega, e dá sinais de presença. Era Nestor, um velho besouro verde escuro que naquele momento aderia ao movimento. Zigue-zigues de asas ressecadas executavam voos rasantes, em uma acrobacia conciliatória de adesão. O rola-bosta Zulu fofou o chão para também sinalizar sua presença. Uma touceira de oró se eriçou, tocado pela preguiça, afastando a terra que cobria parte de suas folhas, em sinal de apoio. Sissi, uma formiguinha que liderava um grupo de voluntários, piscou um olhinho em aprovação. Ali, suspeitei de ter avistado um resalgar roendo a caruma de um pequeno fruto. Devo ter imaginado. Nestas paragens não há resalgar, imaginei. Enfim, contabilizada a adesão de todos os elementos do baixo clero, digo, do rés-do-chão.

Adolfo, um guaxinim feioso, tomou a palavra:

– Temos que nos unir para melhorar nossa sobrevivência nessa várzea. Sabemos das dificuldades de se viver neste lugar inóspito e salitrado. Somos sobreviventes em um ecossistema onde poucas espécies conseguem desenvolver-se. Além disso, temos de estar atentos aos agravos mais comuns por aqui. Temos esses cavalos quase banguelas que passam o dia beliscando nossos raminhos, mas conseguimos nos recuperar. O pior acontece quando alguns malucos, de enxada em punho, tentam devastar ainda mais esse solo seco, na esperança de que algum tipo de plantação floresça por aqui. Pior: eles ainda põem fogo nos elementos do rés-do-chão – em nós, quero dizer. Este, sim, é um dos nossos maiores desafios. Destaco a grande ajuda que podemos ter dos carrapichos e beldroegas. Os carrapichos, que procurem se instalar nos entrededos e na sola dos pés. As beldroegas – que são utilizadas em chás -, que se irritem ainda mais, e passem a produzir elementos químicos que irritem o intestino desses humanos, determinando seu adoecimento e prostração. Caso não surta o efeito que desejamos, que se aumentem as toxinas e partamos para o confronto absoluto.

E Adolfo continuou:

– Nesta investida, temos que nos apoiar em nossos amigos históricos, como os maçaricos, os calangos, as formigas cortadeiras, e em alguns tatus que ainda resistem ao extermínio dessa valorosa espécie. Não nos esqueçamos das borboletas; pobres, sim, com direito a um colorido simples, mas eficazes no seu polimizar. Temos ainda alguns representantes dos besouros e das lagartas, especialmente as lagartas de fogo e o resalgar, a quem saúdo. Já recebemos apoio de um grupo de morcegos que muito pode colaborar neste nosso processo de resistência. Não sei se devemos convocar uma reunião com os carcarás. Deixemos os carcarás pra lá. Os maçaricos não aprovariam.

Logo, Adolfo recebeu apoio incondicional da rosa-cera que, mesmo não estando no grupo do rés-do-chão, considera-se discriminada pelo restante das plantas da várzea e da beira da estrada. De pé, ao longe, fazia sinal de aprovação.

Tudo pronto para a ação. Chegara o momento dos detalhamentos, das ponderações. O serviço reservado detectara a presença de elementos mascarados infiltrando-se no meio do grupo, distribuindo balaclavas. Avisado, Adolfo – conhecido como o Zorro das várzeas -, comedor de caranguejos e camarões, com seu status e quilos a mais, concluiu:

– Contra quem, de fato, estaremos atuando? Os ratos de várzea, no anonimato covarde dos black blocs, atacarão que propriedades? Públicas ou privadas? Se públicas, são nossas. Não podemos destruir o que nos pertence. Se privadas, por que destruir o bem que outros conquistaram ao longo de anos de trabalho e dedicação? Sugiro discutirmos com clareza as nossas reivindicações.

Ao final, um grande forró aconteceria naquela noite quente de sexta-feira. A estrela da noite foi Fininha, uma barata d’água antes agitada e furiosa.

Na manhã do sábado, silêncio e paz na várzea.

 

 

 


Responses

  1. Uma das melhores histórias que você escreveu, Evaldo, exceto por aquela da trunfinha, talvez…
    Abraço amigo do

    Omar


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