Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 5, 2014

O PAI QUE EU NÃO TIVE

O ano era 1950; o mês, julho. Nesse período, o Brasil vivia dias de efervescência em face da copa do mundo, cuja decisão seria naquela semana – 16 de julho – no novíssimo estádio do Maracanã. Em todas as cidades do país – sob o governo de Getúlio Vargas – a euforia era enorme, com as transmissões radiofônicas elevando o nível de brasilidade a ser temperado com a certeza da conquista da taça do mundo que se avizinhava. Era a promessa de um Brasil grande e vitorioso.

Na capital do estado, o casal Mirna e Ortêncio Baccira se preparava para receber o(a) filho(a) há anos esperado(a). Mirna era professora do ensino secundário, amada por seus alunos, enquanto Ortêncio desenvolvia suas atividades de professor na universidade federal.

No dia 16 de julho, no Maracanã, Friaça abria o placar para o Brasil, e Schiaffino empataria a partida para o Uruguai dezenove minutos depois. O resto dessa história é conhecida e até hoje lamentada por todos os brasileiros. Nesse mesmo dia, nascia Eugênia, aquela menininha tão aguardada pelo casal Baccira. Naquele tempo, somente no momento do parto o sexo da criança era conhecido.

O casal, na maternidade, recebia os cumprimentos dos amigos, rostos ainda vermelhos pelo choro da derrota no futebol. Ortêncio, com os colegas da universidade, fumava seu charuto de satisfação.

No dia seguinte, logo cedo, Ortêncio estacionava seu carro em frente à maternidade, e mãe e filha embarcavam. Aquela, coroada com o halo da felicidade; esta, tentando vasculhar o mundo com sua visão ainda embaçada.

A família chegou em casa; entraram os três. A mãe, assessorada por familiares , tomou algumas providências e seguiu para seu quarto, orientada pelo choro da criança, que já emitia sinais de fome.

Naquela mesma manhã o professor retornaria à universidade, conforme combinara com a esposa. Ortêncio nunca mais apareceu. Entrou em seu carro e desapareceu, sem emitir qualquer sinal de vida nos vinte e nove anos que se seguiram.

Mirna mudou-se para uma cidade menor, registrou a filha somente com seu sobrenome, e a criou da melhor forma possível.

A criança estudou, formou-se e se tornou pediatra. Doutora Isabel era bonita, tranquila, mas acomodava em seu coração uma pendência, um espaço vazio. Jamais vira seu pai.

A pediatra, estando em São Paulo para participar de um congresso de sua especialidade, foi almoçar com algumas amigas em um restaurante próximo ao centro de convenções onde se realizava o evento. No momento de pagar a conta no caixa, algo lhe chamou a atenção: uma bela moça, na sua frente na fila do pagamento, disse seu nome: Lúcia Baccira. Ao ouvir esse sobrenome que jamais ouvira em toda a sua vida, Isabel perguntou:

– Desculpe, mas sua família é de qual estado do Brasil?

– Meu pai é da Bahia. É professor universitário em vias de aposentadoria, aqui em São Paulo.

– Posso saber o nome do seu pai?

– Ortêncio Baccira.

Durante a conversa que se seguiu, Isabel ficou sabendo que aquela moça tinha a mesma idade sua, e nascera no mesmo mês de julho em que se realizara a quarta edição da copa do mundo.

Isabel jamais viu seu pai. Em seu peito, até hoje, sessenta e quatro anos depois, a dor da ausência continua.

 

 

 

 


Responses

  1. Evaldo, interessante relato este teu!
    Destino, sina, acaso ou coincidência qualquer que seja a denominação atribuída , esse encontro foi predeterminado por Deus. Quem sabe, para justificar (ou definir) o comportamento deste “pai” que não foi suficientemente corajoso para esclarecer a situação, o que seria mais plausível..Dá-nos uma ideia da diversidade comportamental de nós, humanos.
    Um abraço.


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