Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 17, 2014

LOUCURA, UM LIMIAR

O domingo amanhecera lindo, com o sol a exibir-se no céu azul do planalto central. Por volta das dez horas, preparava-me para visitar uma feira do mel que acontecia no Jardim Botânico, quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, uma cliente de classe média alta, em tom desesperado, insistia para que eu me dirigisse imediatamente para sua casa, em um bairro elegante de Brasília. Sua filha havia enlouquecido, e a ameaçava com rispidez.

Logo ao chegar à bela residência, uma visão inusitada. Dois cães gigantescos, contidos por uma cerca de no máximo setenta centímetros de altura, nos padrões de casinhas europeias, davam as más vindas. As réguas de madeira, pintadas de branco, não resistiriam a um pequeno empurrão. E os dois cães enormes à minha frente.

– Pode entrar. Eles não mordem -, gritou minha cliente abrindo a porta.

Pedi para que os cachorros fossem postos no canil, e só depois entrei na residência. Em estilo moderno, a sala ostentava um pé direito avantajado, de uns seis metros de altura, ladeado por um mesanino. Do ponto mais alto do teto descia uma corrente de ferro com grandes elos e, na ponta, uma roda de aço de cerca de um metro de diâmetro com lâmpadas em volta compunham um belo e tenebroso lustre. No centro da roda, uma ponta de lança destacava-se a um metro acima de uma grande mesa de madeira maciça, lembrando aquelas maravilhosas tabernas vikings.

Nesse momento, a porta de uma sala em frente à mesa se abre e emerge a figura de uma mulher bonita, com ares de executiva a caminho do bar. Bem vestida, trazia nas mãos bem cuidadas um violão seguro pelo cabo. No canto superior do corpo do instrumento, junto ao rastilho, por baixo das cordas, um pequeno coração com uma flecha dava um toque juvenil ao conjunto.

Cumprimentou-me e falou que estava se dirigindo a um centro comercial com grandes áreas de lazer e praças de alimentação, que ficava bem próximo de sua casa. Alguns amigos a esperavam desde as dez horas, e ela iria a pé.

A mãe, resfolegante, saltou da cadeira e se pôs na porta de saída, com as mãos e as pernas abertas em forma que lembravam o homem vitruviano com os membros bem abertos, em xis, fechando a passagem da bela jovem.

– Por aqui você não sai! – gritava a mulher desesperada.

A filha, com ares de ninfa dos jardins do Olimpo, virou-se para mim e fulminou:

– E a doida sou eu!

Saiu a passos lentos, em direção ao local onde seus amigos a aguardavam


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