Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 11, 2014

BELÉM, BELÉM

Catolé do Rocha, década de 1930. Meu pai contava que um rapaz da cidade foi pedir a mão de uma moça do campo em casamento. A família da roça ficou muito feliz, pois sabia das qualidades do rapaz. Terminado o almoço na varanda da casa, o pai da moça pediu ao futuro genro que cortasse um pouco de lenha para fazer o café. O rapaz pegou o machado e, de costas para a família da moça, iniciou o corte da lenha. De costas, ele deixou escapar um pum. Soltou o machado e, envergonhado, saiu cabisbaixo, sem olhar para trás, e nunca mais foi visto. Aqui, a ação devastadora de flatos e borborigmos.

Areia Branca, década de 1950; o mês, agosto. A quietude da pequena cidade fora tomada por sons e cores, e pela alegria da meninada. Uma agitação efervescente enchia ruas, lares e corações. No cais, mercadorias chegavam, trazidas pelos barcos dos beijus. A Rua 25 de Março, digo, a Rua da Frente fervilhava de pessoas entrando e saindo de suas lojas e mercearias. A Festa de Nossa Senhora dos Navegantes se avizinhava.

No Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra, Enila chegava para mais um dia de aula. Era a garota mais bonita da escola. Carlos, que estudava na sala vizinha, aguardava a chegada da menina com o coração garroteado por uma forte emoção. Teria que ser naquele dia, no intervalo para a merenda. Carlos era um menino feliz, acostumado às capilossadas e mungangas da vida de estudante. Enfim, um garoto.

No pátio, isolado dos colegas, Carlos ensaiava sua primeira declaração de amor. Seu clímax de paquera pré-pubertária, quase juvenil. A menina, desligada, participava de uma roda de conversa com algumas colegas de sala. Carlos fez um sinal, chamando-a com o olhar. Ela, com um riso mal posto nos lábios, dirigiu-se a ele que, controlando sua tremedeira, falou:

– É que eu… eu queria namorar com você.

Enila baixou a cabeça e, encabulada, respondeu:

– Meu pai não permite que eu namore.

– Mas é somente na ida e na volta da escola, e na pracinha, depois das novenas na igreja matriz – respondeu Carlos.

– Não, não dá.

Carlos empertigou-se qual um cisne, juntou as pontas dos dois indicadores na frente do corpo e pediu:

– Corte aqui. Estou de mal.

Carlos fixou o olhar em seus dois indicadores unidos. Esperava que ela cortasse essa junção de baixo para cima, o que indicava alguma possibilidade de reconsideração.

Ela cortou de cima para baixo, com seu dedinho indicador direito, a união trêmula dos dois indicadores à sua frente.

Carlos balbuciou:

– Belém, belém, nunca mais te quero bem!

No início de 2013, soube que Carlos havia morrido em São Paulo.

Morreu solteiro, como sempre vivera. Jamais retornou à sua cidade natal.


Responses

  1. Texto muito bonito e que mexeu muito com meu íntimo. Retrata os primeiros arroubos relacionados à atração pelo sexo oposto. Pra mim a mais sincera forma de amor entre homem e mulher. Depois dessa fase vem a crueza da realidade e os ‘calos’ vão-se acumulando com as frustrações e muitos se tornam amargos e descrentes das coisas boas da vida. MUITAS SAUDADES COMPANHEIRO VELHO.

  2. Caro Evaldo! Suas crônicas belíssimas me deixa muito feliz com todas as histórias da nossa querida Areia Branca. Toda semana fico na expectativa de mais uma linda crônica escrita por voce. Que Deus te dê muita saúde e muitos anos de vida para nos presentear com suas belas crônicas. Sua sensibilidade ao escrever sobre nossa Areia Branca, me deixa crê que és um grande profissional ao cuidar de nossas crianças. Que a Paz de Cristo esteja sempre presente em seu coração. Um grande abraço e que Deus te abençoe

  3. Emocionante relato que mexeu com minhas lembranças também. Essa era realmente uma época em Areia Branca, vivida por nós, principalmente aquelas garotas tão obedientes a seus pais…Não condeno a atitude da menina “Enila” porque, inocente, não considerou os sentimentos do Carlos. Mas, bem poderia ter concedido-lhe a possibilidade de uma reconsideração, UM DIA.
    Quem sabe, assim, teria evitado esse desfecho! Ciosas da vida.
    Que Deus te abençoe, Evaldo.


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