Publicado por: Prof. Carlos Alberto | Março 8, 2014

No caminho da Mouffetard, o Pantheon de Paris

O planejado para aquele dia era fotografar locais parisienses importantes para a Geração Perdida, ali no entorno do Jardim de Luxembourg. Já de saída uma grande dúvida. Partiríamos da estação do metrô Sèvres Babylone, pelo Boulevard Raspail até a rua de Fleurus ou da estação Odeon e seguiríamos para a rua de mesmo nome? A primeira alternativa nos levaria ao endereço onde Gertrude Stein, a autora da expressão “Geração Perdida”, viveu com Alice Toklas, de 1903 a 1938. Saindo da Odeon chegaríamos aos dois primeiros endereços da Livraria Shakespeare and Company. Ambas alternativas levariam à rua Vaugirard, nos anos 1920-1930 a mais badalada e bem habitada das ruas que tangenciam o Jardim de Luxembourg, garante Sérgio Augusto, autor de “E foram todos para Paris”.

Decidimos saltar na Sèvres Babylone e escolher o roteiro tomando um cappuccino no aconchegante Bar de la Croix Rouge, na rua de Sèvres. Foi ali que grudei os olhos numa página do Lonely Planet de Paris. Era sobre o Quartier Latin e dizia que não havia lugar melhor para sentir, cheirar e provar aquela região do que a rua Mouffetard. Sua feira a céu aberto, suas lojas de vinho e suas cafeterias formam um cenário mágico, depreendi da leitura. Imediatamente resolvemos mudar o roteiro.

O mapa do guia Le Petit Parisien indicava um bom percurso: seguir pelo Boulevard Saint Germain e entrar à direita no Saint Michel. Ali na esquina, para não sucumbir à tentação de ir até à Vaugirard e enveredar pelo Jardim de Luxembourg, dizia meu cérebro bem programado: feche os olhos, siga o Saint Michel e jamais dobre à direita, sempre à esquerda. Não, isso não é uma metáfora política, é apenas uma orientação geográfica. Para qualquer visitante ocasional aquele percurso tem uma caixinha de surpresa atrás de outra. A primeira surpresa foi quando demos de cara com a Place de la Sorbonne, na frente de um belo prédio. Turistas fotografando, guia explicando, provavelmente que aquele era um dos prédios mais antigos da Sorbonne, mas, nem a guia, nem qualquer membro daquele grupo colocou os olhos num busto que estava à esquerda da praça. Era Auguste Comte, o pai do positivismo. Logo lembrei do prof. Hélgio Trindade, grande conhecedor da vida e obra do precursor da sociologia.

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À esquerda dessa pequena multidão, o busto de Auguste Comte, que ninguém deu bola!

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Logo depois da praça da Sorbonne, a passos largos entramos à esquerda na rua Cujas, no rumo da Mouffetard. Mas, logo no cruzamento da Cujas com a Saint Jacques, um prédio sem qualquer atrativo arquitetônico chama a atenção pela inscrição no alto da sua fachada: Universites Paris I Paris II Centre Pantheon.

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Ops, para um visitante em busca da Geração Perdida, aquela inscrição era um sinal de alerta, logo materializado quando, alguns passos adiante, avistamos o imponente prédio do Pantheon, depositário de marcos históricos da cultura francesa.

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À esquerda de quem olha a frente do prédio, a majestosa biblioteca Sainte Genevieve, com seus mais de dois milhões de documentos catalogados. Com muita energia resistimos à tentação de ali entrar e jogar olhares furtivos ou profundos sobre suas históricas prateleiras. Fotografamos tudo no entorno, da fachada às placas de rua.

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Para não perder os últimos raios de luz daquele agradável dia parisiense e fotografar o mercado da Mouffetard, de novo rumamos a passos largos para a rua Clovis e tivemos que parar. À nossa direita, o Lycée Henri IV. Agora, me responda, é possível passar na frente desse monumento da educação francesa sem parar, nem que seja para um breve extasiamento (eu sei, a palavra não existe nem eu sou Guimarães Rosa)? Fiz mais do que isso, cliquei de todos os ângulos. Comovido, fotografei a placa à memória das crianças judias que, com a cumplicidade do Governo de Vichy, dali foram enviadas para a morte em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

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Tradução: À memória das crianças, alunas desta escola, deportadas de 1942 a 1944, por serem judias, vítimas inocentes da barbárie nazista com a cumplicidade ativa do governo de Vichy. Elas foram exterminadas nos campo da morte. Não esqueçamos jamais. 27 de setembro de 2008.

O cair da tarde em rápida progressão não nos impediu de registrar a maravilhosa rua Mouffetard, mas, isso já é outra história.

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Responses

  1. Carlos Alberto, que honra tê-lo aqui, com essa maravilha de texto. Não me contive. À noite lerei com maior entusiasmo, à esquerda de uma taça de VINHO VERDE, já à espera.

  2. Fico honrado com tão categorizado leitor. Categoria fina na vernáculo e no campo etílico.

  3. Que alegria encontrar este artigo sobre um dos meus lugares favoritos de Paris
    . Mouffetard,Pantheon, JARDIM DE LUXEMBOURG , Quartier Latin,Boulevard Saint Germain.
    Me fizeran caminhar nestas ruas e Parques como se la novamente estivesse.
    Quando voltarem a Rue Mouffetard nao deixem de visitar “La Maison de Verlaine”
    39
    Rue Descartes-75005 Paris
    telephone 0143263915
    Nao sei se abre para lanche , mas esta aberto depois das 17:00 horas para jantar. E um ambiente muito agradavel
    E casual como tudo em Mouffetard , mas a comida e divina.
    Tem outro restaurant que chama Vulcan ‘e tambem nao me desaponta, fica bem na esquina de Rue Mouffetard .
    Bebam uma taca de vinho pensando nesta amiga.
    Abracos.


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