Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 7, 2014

UM ROLEZINHO PERTO DAS NUVENS

Oraci era um cupim subterrâneo, desses que constroem imensas galerias no solo e se movimentam nesses túneis com desenvoltura. Nasceu e cresceu em um quintal grande, quase uma chácara, um pouco afastada do centro e, de lá, conseguia vislumbrar o brilho das luzes e a ponta da torre da igreja, que sabia ser bonita.

Desde pequeno Oraci ouvia falar de outros cupins que tinham conquistado o mundo, em voos argonáuticos, desafiando deuses e ventanias, para formar novas povoações (colônias). Sabia que alguns até conseguiram chegar ao outro lado do rio Ivipanin, e isso o deslumbrava.

Seu pai o avisara de que todo cidadão cupim, sem que se soubesse por que, em determinado momento ganhava dois pares de asas. No mês de agosto, Oraci percebeu que seu organismo dava sinais de mudança, e seu pai o aconselhou:

– Meu filho, como já avisei, você está ficando adulto, e vai ganhar suas asas. Espero que tenha sabedoria para saber usá-las.

Ensaiados os primeiros voos, em treinamentos no quintal, Oraci juntou-se a um grupo de camaradas cupins que estava de partida e alçou voo com ar de vitorioso, no início da noite.

Achou a cidade bonita, vista de cima. Olhou para trás e pôde ver uma revoada de companheiros ganhando espaço atrás de si. Sem dar ouvido aos clamores dos outros cupins, dirigiu-se feito flecha no rumo das luzes da pracinha. Extasiado com tanto brilho, fechou os olhos e partiu em direção à lâmpada, e morreu queimado, rolando pelo chão. Sem perceber, Oraci havia atraído a maior parte dos cupins, que o seguiram na direção do brilho fácil.

Nesse rolezinho, dois grupos conseguiram cumprir o que haviam programado. Alguns instalaram-se nas proximidades do matadouro público, por voarem contra o vento.

Apenas cerca de 5%, que voavam a favor do vento, seguindo as orientações do pai de Oraci, conseguiram atravessar o rio e se instalar do outro lado, depois do manguezal, nas proximidades de Grossos, e logo seus membros cuidaram de fundar novos assentamentos em outros reinos, nas terras de além-rio, baseados em uma rainha.

No rolezinho, a maioria se perdeu. Os mais fortes e de melhor visão conseguiram o feito maior.

Uma elite de seres ctônicos alçando voos inimagináveis.

– – – –

PS: Os cupins que participaram desse rolezinho desconheciam um fato importante, relacionado com uma linhagem nobre da família. O historiador Laurentino Gomes, em seu livro 1822, à página 33, destaca a presença de cupinzeiros no exato local onde foi dado o grito de independência. Desse modo, o maior acontecimento da História do Brasil foi presenciado por cupins que, se humanos fossem, seriam distinguidos com honrarias e títulos de nobreza.

 

 


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