Publicado por: Evaldo Oliveira | Janeiro 24, 2014

O VENTO DA ESQUINA DO MUNDO

 

Areia Branca-RN, 1959. Aqui, na esquina do mundo, o vento bate primeiro. Quando voltamos da Europa, quase sempre sobrevoamos Areia Branca para entrar no Brasil.

O vento sopra suave, depois de sua passagem sobre o imenso mar. Surge limpinho, com ares de viajante, depois de rodopiar pelo oceano, atiçando ondas, brincando de dono dos mares. Em seu caminhar, sei que vislumbrou cardumes de pequenos peixes tentando, em vão, enganar grupos de golfinhos habilidosos, que caçam brincando. Ou seria o contrário?

Criança, tentei escrever meu nome no vento, mas ele se esquivou.

Ao chegar de forma branda nas praias da Salinésia, o vento que soprava em minha meninice trazia consigo resquícios de ondas, a visão do infinito, restos de luares. Passava serelepe pelas salinas, abençoava coqueirais e alvoroçava cajueiros largados no chão seco e salitrado. Resvalando nas falésias, refrescava grotões anônimos, pequenos cânions que pensavam ser desfiladeiros em uma terra sem montanhas.

Na praia de Upanema, cedo chegado, acomodava-se com a tardinha e, nesse conluio, arrastava-se pelas noites, espargindo seus nanocristais com cheiro de mar, em seus rolés por dunas assanhadas, resvalando em suas barrigas de dinossauro, desnudando pequenos seres ctônicos em suas andanças invisíveis.

Planalto Central, 2014. Por que falo do vento que passa aqui? De passagem pela Chapada dos Veadeiros, em Alto Paraíso, Goiás – conhecido como o paraíso do centro oeste -, conheci trilhas feitas de pedras brancas e cristais de rocha, ao lado de uma legítima vegetação do cerrado. Ali, envolvido pelo barulho de nascentes de água límpida, abafado pelo ronco das corredeiras, fui tocado por um vento que imagino conhecido. Um vento com um pequeno rabisco na barriga.

Daí, minha suspeita de que esse vento seco, que cruza a imensidão deste cerrado oculto no ventre de  Goiás, agitando cachoeiras e berrando no chão seco, é o mesmo que passou por minha terra, lá na esquina do mundo, nos idos da minha infância. Pelo rabisco em sua barriga, concluo que é ele, sim, embora desfigurado. Percebo os traços do meu nome que nele escrevi quando criança, bem próximo ao seu umbigo.

É que, aqui, despido de seus elementos marinhos, o vento corre ligeiro, aquecido e quase sem umidade. Aqui, conhece pássaros diferentes; não mais massaricos. Aqui, aera e refresca plantas distintas. É o pequi em vez do caju; plantações de soja em vez de várzeas.

Um vento com ares diferentes, mas conhecido desde minha infância.

Um risco na barriga do vento. Coisas de criança. Devaneios de adulto.


Responses

  1. Muito legal. Posso afirmar que esta mesma barriga está no minuano do meu Rio Grande.

    • Pingret, sei de suas andanças pelos caminhos do mundo, em especial pelos de Santiago de Compostela. Também sei de seu amor por cachoeiras e nascentes. Por isso, acredito que o seu minuano tem a marca de suas traquinagens de criança.

  2. Agora tá explicado. Ontem soprou um vento bravo por aqui assoviando e cantando uma música de lamento que dizia: “Por essas bandas do nordeste/Arranharam minha barriga/Quem foi o cabra da peste?/Se souber, me diga/Mágoa dele, guardo não/Isso é coisa de menino/Traquinas, todos são/Só quero saber o seu destino.” – “Desconfiei que você foi o autor da traquinagem e lhe informei do seu paradeiro/Só não sabia que ele ia lhe achar na Chapada dos Veadeiros”.


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