Publicado por: Evaldo Oliveira | Dezembro 9, 2013

DOIS MOMENTOS, E O PESO FORTE DA DITADURA

Todos nós já enfrentamos situações de injustiça. Saíra do interior do RN havia apenas doze anos, cursando o segundo ano ginasial, e senti o peso da subserviência gratuita, em um caso, e do desentendimento proposital em outro.

Logo que cheguei a Brasília, pelos idos de 1972, em pleno regime militar, iniciei a Residência Médica em um hospital da Fundação Hospitalar do Distrito Federal. Logo no início do ano, o filho de um ministro, cursando os dois últimos semestres de medicina, veio fazer internato no Hospital da L2 Sul, e ficamos muito amigos. Dois meses depois, em um fim de semana, um grupo de médicos residentes foi convidado por um fazendeiro do interior de Goiás para passar dois dias em sua propriedade.

O filho do ministro, um dos mais humildes do grupo, falava pouco e se divertia muito, ao lado de sua namorada. Passeamos pela fazenda, e as ocupações foram muitas, desde andar a cavalo ou tomar banho de piscina. Outros preferiram pescar em um pequeno lago ou ficar à toa, curtindo o verde bem cuidado. À noite, fomos convidados para um jantar especial, à moda goiana, com o famoso arroz com pequi dominando as preferências e o odor do ambiente.

Cerca de uma hora depois que todos foram para o quarto, e dormiam tranquilamente – todos, menos eu -, a porta  abriu-se devagar e uma pessoa verificou os rapazes deitados, sem fazer barulho, com um flash light na mão. Com calma, conferiu cada um que dormia, foi passando junto aos pés e, quando chegou no penúltimo, pôs um lençol cuidadosamente espalhado sobre as costas sem camisa. O rapaz sequer percebeu que fora contemplado pela sorte. Era o filho do ministro.

Passados dois anos, e já  com a Residência Médica concluída,  resolvi  apresentar-me ao Exército, para prestar serviço como voluntário em um hospital militar de Brasília. Decidido a passar um período servindo ao Exército, dirigi-me ao Ministério da Guerra, bem ali, na Esplanada dos Ministérios.

Curriculum vitae  cuidadosamente preparado, fotocópias anexadas, documentos em ordem. E lá fui eu. Apresentei-me no balcão onde deveria preencher a proposta para trabalhar como médico voluntário. Quando, aos dezoito anos, me apresentei para servir, fui dispensado. Sou portador de documento de dispensa por excesso de contingente, e sabia que poderia me apresentar, por ser médico.

Por oportuno, lembro que o Brasil se encontrava em plena ditadura militar. O sargento recebeu meus documentos som solicitude, conferiu a autenticidade das cópias dos diplomas, virou e revirou as páginas, e se dirigiu para o seu superior, que se pôs a também examinar a papelada. Olhou, examinou, voltou a uma página anterior, fez cara de mau e disparou:

– Você não pode se candidatar ao cargo de médico voluntário, devido à sua condição de dispensado do serviço militar obrigatório.

O sargento tentou argumentar, mas o capitão foi enfático:

– Veja o que diz a lei, disse o capitão: poderão se apresentar como voluntários das Forças Armadas os formados em Medicina, Odontologia e Medicina Veterinária (se não me engano, eram essas três áreas), qualquer que seja sua situação militar. Está vendo? Você não pode.

Vamos conferir este raciocínio enviesado. Poderia ser aceito qualquer cidadão formado em uma dessas três áreas, qualquer que fosse sua situação militar. Mas eu não podia.

A vida em dois momentos. Em um, a escolha aleatória de um elemento a ser distinguido com uma honraria. No outro, o descarte fácil e irresponsável, ditado pelo trovão da prepotência em conluio com o bafo gelado do descaso.

 

 

 


Responses

  1. Olá Evaldo Oliveira…

    Fiquei feliz com a lembrança de alguns da minha família, já falecidos e citados nos seus comentários. Meu avô o Valdemiro Valdemar de Vasconcelos e o meu tio bisavô, que era o Gerôncio Vasconcelos, que era um grande comerciante local. Por sinal, estou fazendo uma pesquisa genealógica de minha família. Se você souber informações sobre eles, de preferência o Vicente Alves de Vasconcelos e seus filhos: Gerôncio Vasconcelos Almino Vasconcelos e Firmina Vasconcelos, agradeço.

    Abraços,
    José Roberto de Vasconcelos

    • Caro José Roberto, meu pai trabalhou durante muitos anos com seu Gerôncio, até ele ir para Natal. Meu pai continuou morando e negociando no mesmo prédio de seu avô, até que em 1959 ele foi vendido, e nós nos mudamos em janeiro de 1960 para Natal, onde morava seu Gerôncio. Meu irmão Mauro sabe de alguns detalhes de seu Gerôncio. Se for do seu interesse, eu o colocarei em contato. Um abraço.

      • Boa noite caro Evaldo. Fico feliz em saber de sua proximidade com os meus familiares. De fato ficarei grato se você me fornecer o contato como seu irmão para que eu colha mais detalhes da vida de tio Gerôncio.
        Um forte abraço,

        José Roberto de Vasconcelos

  2. O comentário foi o seguinte:

    Miranda, quanto ao nome de seu Lalá, você tem razão. Porém não sei se na Rua da Frente havia o nome no alto do prédio. De todas as lojas daquele trecho eu só me lembro da de GERÔNCIO VASCONCELOS, e ficou lá durante muitos anos, mesmo quando ele já morava em Natal. Porque, naquela época, as lojas eram conhecidas pelos nomes dos donos. Bodega de Zé Silvino, Loja de seu Quincó, Bodega de Antonio Noronha, Bodega de Valdemiro (Valdemiro Valdemar de Vasconcelos), Bodega de seu Josa, Bodega de Zé Leonel e dona Hilda, Bodega e fábrica de vinagre de dona Branca, mãe de Lázaro, Tututa e Petinho. E por aí vai.

  3. Quase me esqueci… Me número de telefone é o 94814463 e o meu e-mail é o joservasconcelos@hotmail.com.

    Abraços, José Roberto de Vasconcelos

    • Caro José Roberto,
      Em conversa com pessoas que conheceram seu Gerôncio, todas foram no sentido de que as filhas de Valdemiro (Valdeme e Luzia) têm as informações que você deseja. Não tenho os telefones delas, mas você pode tentar através de alguém de Natal. Abr. Evaldo

      • Olá Evaldo… Na verdade sou o filho de Luzia e sobrinho de Valdeme! Gostaria de saber apenas alguns detalhes a mais, tendo em vista que as informações que seu pai deve ter passado para vocês, podem ter alguns detalhes que as mesmas não tenham conhecimento, principalmente no que se refere ao comércio e questões de ordem pessoal.

        Abraços,

        José Roberto


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