Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 29, 2013

GRACILIANO RAMOS, DA CAATINGA AO LITORAL

 

Areia Branca, 1959. Na Rua da Frente, uma bodega próximo à minha casa estava abarrotada de contumazes tomadores de pinga. Havia os que gostavam da branquinha pura; outros a exigiam com casca de jatobá, que conferia à bebida uma cor especial e um cheirinho inconfundível. Era manhã de um sábado nublado, com um agrupamento de nuvens no rumo de Porto Franco, estendendo-se para Grossos. Uma reunião tensa de nuvens escuras, de onde saíam algumas faíscas.

Aqui e ali, a dose do santo era salpicada na calçada, procedimento sempre acompanhado de uma loa e, naquele dia, com as alvíssaras de uma boa chuva que teimava em não chegar. No meio do converseiro, surgiu um homem de paletó, exposto como seminovo, mas com cara de muitos carnavais e cheiro de noitadas sem fim, pros lados de Honorina. Chegou em marcha lenta, cumprimentos à mão solta. Lembro que o sujeito era magro, esperto, conversa franca e humor contagiante. Só não lembro o nome. Nunca o vira por ali.

– Que casaco bonito!, bradou alguém na outra ponta do balcão em L, em que as pessoas se viam com facilidade, quase frente a frente.

Alguém no meio de um grupo junto à parede complementou:

– Parece que o defunto era maior.

O espevitado rapaz, sem que qualquer livor turvasse sua face, já marcada com as raias do cansaço, respondeu:

– Você tem razão. Só que eu não lembro o nome do sujeito. Ganhei da viúva de um rapaz que morreu em Mossoró. Mas morreu de morte morrida, completou.

O jovem mancebo não lembrava o nome do defunto do qual herdara aquela bela vestimenta. E era seu amigo. Por mais que tentasse, não conseguia lembrar.

Hoje, relendo Graciliano Ramos pela quinta ou sexta vez, reencontrei Fabiano e sinhá Vitória caminhando pelo descampado, no rumo dos juazeiros invisíveis. De real, a presença de espinhos, com velhos mandacarus e xiquexiques; de quebra, algumas catingueiras morriam ao sol abrasador. No alto,  urubus matreiros sobrevoavam as ossadas ressequidas de animais mortos pela seca. À frente do grupo, Baleia, com suas costelas à mostra, corria ofegando, a língua fora da boca. Cabisbaixa, a cadela não lembrava que no dia anterior jantara os pés, a cabeça e  os ossos do papagaio amigo – logo ele, que aboiava, tangendo um gado inexistente, e latia arremedando a cachorra, mas estranhava não ver sobre o baú de folha a gaiola pequena onde a ave se equilibrava mal. Fabiano também às vezes sentia falta dela.

Nos rigores da seca ou no reverberante ambiente da esbórnia, o esquecimento de um ente que outrora foi amigo, caminhou conosco. Mas sequer nos lembramos do acontecido.

Juazeiros invisíveis. Gado inexistente. Amigo morto, nome esquecido.

Vidas secas. Da seca no sertão ao prenúncio de chuva no litoral.


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