Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 23, 2013

AS DIFICULDADES DE GABRIEL

Gabriel, aos 38 anos, tentava dar vida a um sonho. Escrever seu quinto livro que, pelos cálculos que fizera, levaria ao menos seis meses para ficar pronto, trabalhando todos os dias. Dificuldades, conhecia bem. Morava em um país pobre, e estudara o colegial como aluno interno graças a uma bolsa de estudos.

Na solidão de um quarto, iniciou os golpes com seus dois indicadores nos teclados, onde as vinte e oito letras foram fustigadas sem descanso, ferindo de preto as brancas páginas que seguidamente colocava ante o rolo da velha máquina de escrever.

Acreditando ser o papel para a máquina de escrever o mais angustiante problema, pensava ele que os erros de datilografia, de linguagem ou de gramática eram na realidade erros de criação, e cada vez que os detectava rasgava a folha e jogava no lixo, para começar de novo. Sentado diante da máquina, escreveu frases e expôs pensamentos sem a mínima noção do seu alcance.

Para esta difícil missão, convidou Esperanza Araiza, sua inesquecível Pera, então datilógrafa de poetas e cineastas, experiente na finalização de grandes obras de escritores mexicanos, para passar a limpo a versão final de seu livro. O romance era um rascunho crivado de remendos, alguns em tinta azul e outros em tinta vermelha.

Certo dia, Pera levava para casa a última versão do livro corrigido, escorregou ao descer do ônibus em um aguaceiro de dilúvio e as páginas ficaram flutuando numa poça da rua, que foram recolhidas da água com a ajuda de outros passageiros, e secadas em casa folha por folha com um ferro de passar roupa.

A elaboração do livro levou dezoito meses, e fica difícil entender como o escritor e Mercedes sobreviveram, com seus dois filhos, quando naquele tempo não ganharam um único centavo de qualquer lugar. Não adiantou sua tentativa de vender algumas joias recebidas de seus familiares ao longo dos anos. Ao exame do especialista da casa de penhores, a confirmação de que tudo aquilo era vidro puro punha fim a um fio de suas esperanças.

Terminada a versão final do livro, foram os dois – Gabriel e Mercedes – até uma agência dos correios para enviar para Buenos Aires – Editorial Sudamericana – a versão terminada do livro, um pacote de 590 laudas escritas a máquina em espaço duplo e em papel ordinário. O funcionário do correio pôs o pacote na balança, fez seus cálculos mentais e disse que custava oitenta e dois pesos. Mas eles só dispunham de cinquenta e três. O pacote foi então dividido em duas partes iguais e uma delas foi mandada para Buenos Aires. Mais tarde, Gabriel e Mercedes perceberam que haviam encaminhado a segunda parte, e não a primeira. O editor enviou dinheiro para que a primeira parte fosse então enviada.

Gabriel Garcia Marquez jamais imaginou que aquele seu pensamento (Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde em que seu pai o levou para conhecer o gelo.) ganhasse o mundo, espalhando-se pelos lugares mais distantes, e 36 milhões de livros fossem lidos em todos os continentes deste pequeno planeta chamado Terra.

Cem Anos de Solidão.

 


Responses

  1. Caramba, Evaldo.
    Que texto mais redondo.
    Conhecia a história da elaboração do livro do Garcia Marquez. No México, com
    muitas dificuldades e muitos maços de cigarros.
    Vc conseguiu passar uma visão diferente. Emocionante. Coisa de quem sabe.
    Parabéns.
    O seu feito me lembrou “Tenda dos |Milagres”, do Jorge Amado:
    Na sala de ex-votos da igreja do Senhor do Bomfim, um pagador de promessas
    havia escrito na sua oferenda: “NESTE, O SENHOR DO BOMFIM EXCEDEU-SE!”
    VALEU.
    Abs, geniberto

  2. Dr. Evaldo, mais uma vez, PARABÉNS, pela exposição tão maravilhosa!
    Li e pretendo reler “Cem anos de Solidão” uma história com alguns detalhes um pouco extravagantes, mas esplendoroso enredo, o qual nos deixa fascinada por abranger além do aspecto humano, o político também.
    Amei o livro, como o tua crônica!
    Um abraço

  3. Dr. Evaldo, mais uma vez, PARABÉNS, pela exposição tão maravilhosa!
    Li e pretendo reler “Cem anos de Solidão” uma história com alguns detalhes um pouco extravagantes, mas esplendoroso enredo, o qual nos deixa fascinada por abranger além do aspecto humano, o político também.
    Amei o livro, como a tua crônica!
    Um abraço


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: