Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 15, 2013

PRIMUM NON NOCERE

Residente do último ano de cirurgia, o Dr. Paulo Argel já estava contando as horas para terminar seu plantão em um hospital privado de Fortaleza, em meados da década de 1980. De repente, um veículo surgia com quatro pessoas, vítimas de mais um acidente de carro naquele dia. Juntos, pai, esposa, filho e filha. Uma família de norteamericanos.

Os quatro ocupantes foram vítimas de um acidente automobilístico no interior do estado, e removidos para Fortaleza sem atendimento prévio. Dos quatro, a filha de 13 anos sofrera as piores lesões. Tratava-se de um gravíssimo trauma na face. A mãe, ao chegar, explicava ao médico residente que havia encontrado o olho direito da moça no assoalho do carro, e não tinha noção do paradeiro do olho esquerdo.

Levada às pressas ao centro cirúrgico, logo foi localizado o olho esquerdo. Encontrava-se na cavidade nasal. Com a fratura do piso do assoalho da órbita, o olho fora atirado para baixo, alojando-se na cavidade nasal. O nervo óptico parecia íntegro. A equipe cirúrgica rapidamente providenciou a devida recolocação do olho esquerdo no lugar, efetuando-se os procedimentos necessários, na sequência do atendimento.

No sétimo dia do pós-operatório, uma surpresa: após a retirada do tampão do olho, a paciente falou:

– Estou vendo uma luz pelo meu olho esquerdo!

Dias depois, chegou um avião-UTI dos Estados Unidos com o objetivo de levar a moça e sua família para a Pensilvânia. Os familiares insistiram para que o Dr. Argel os acompanhasse até Harrisburg, capital do estado da Pensilvânia.

Mala arrumada às pressas, foram todos para a aeronave. O médico residente brasileiro não poderia levar sua mala pessoal, pois o peso da carga do avião já havia completado. Ele teria que viajar sem sua mala, apenas com a roupa do corpo. E roupa para um clima de cerca de trinta graus Celcius. Na sombra.

Ao pousar em Harrisburg, a temperatura local era de três graus, e o Dr. Argel vestido com a roupa que saíra de Fortaleza. Ao sair do avião, o prefeito da cidade o esperava para uma reunião. Logo, ofereceram-lhe um casaco.

Um grupo de médicos aguardava o médico brasileiro.  Em um pequeno auditório, os chefes dos Serviços de Neurologia, Oftalmologia e Cirurgia Plástica, acompanhados de seus médicos residentes e internos, não escondiam sua ansiedade com a apresentação do Dr. Argel. O Chefe da Cirurgia Plástica, um coreano, sentou-se à mesa e convidou o médico brasileiro para explicações dos procedimentos cirúrgicos oferecidos à paciente no Brasil.

Logo após a apresentação dos slides pelo Dr. Argel, o Chefe da Cirurgia Plástica criticou o atendimento realizado em Fortaleza. Na sua opinião, deveria ter sido feita uma abordagem cirúrgica em tempo único.

– Doutor – falou o Dr. Argel -, é muito fácil criticar agora, na tranquilidade de uma sala. Naquele momento, estávamos diante de uma moça de 13 anos, e com a certeza da perda do olho direito. Em nossa conduta, levamos em conta a preservação da função, em detrimento do resultado estético, que poderá ser abordado na sequência do tratamento.

Houve um certo desconforto entre os médicos, no auditório. Os chefes dos serviços de oftalmologia e neurologia, com um movimento de cabeça, sinalizaram sua concordância com a conduta dos médicos de Fortaleza. Depois de alguns segundos de silêncio, o médico coreano pediu desculpas pelas críticas.

Um ano depois, a família da moça telefonou para o Dr. Argel comunicando que a menina estava participando de um time de basquete da escola, com uma prótese no olho direito e a visão do olho esquerdo recuperada.

Um caso de alta gravidade. Uma conduta arriscada. Um resultado satisfatório.

Riscos envolvem todos os procedimentos realizados em um paciente, especialmente se o atendimento é de urgência. E Hipócrates bem o sabia. Primum non nocere.

Antes de tudo, não causar dano.


Responses

  1. Amigo, MARAVILHA de crônica. Eu que já andava desiludido com os problemas deste País (os políticos), após a leitura do texto acima, ‘ouvi’ meu coração bater forte e voltei a me ufanar de ser brasileiro, simplesmente por ter conterrâneos vocacionados e dedicados, nas diversas áreas do conhecimento. Obrigado por recolocar-me neste contexto que, apesar de seus problemas, ainda é, acredito, o melhor do Mundo.


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