Publicado por: Evaldo Oliveira | Novembro 2, 2013

SOMENTE ALI

 

Da calçada de sua casa, na Rua da Frente, o menino, meu vizinho, olhava para os lados da igreja, para confirmar se os barcos dos beijus haviam chegado. Caminhava até os barcos, ancorados na Rampa, e de lá retornava chupando uma manga espada.

Os pezinhos colocados na água, na bochecha da maré de sizígia, sempre atraíam peixinhos brincalhões, alguns fininhos como a lâmina de uma faca, outros com a cabeça redonda e chata junto aos olhos, e de corpo comprido, com cara de cavilha. Tentando disfarçar, o menino olhava no sentido de casa, para ver se sua mãe não estava vigiando. Sorrateiramente, entrava na água e nadava com os peixinhos, na direção de uma barcaça ancorada e, na volta, disputava quem chegava primeiro ao cais. O menino sempre ganhava. E já chegava ao cais com a roupa seca.

Em tardes livres, no depois dos deveres da escola, costumava olhar para o céu. Algum tempo depois, levantava voo em direção a um ninho de nuvens  branquinhas, e se agitava brincando com os lençóis e travesseiros de madrepérola nacarada, gasosa, onde um avião acabara de passar e desfizera a arrumação anterior, em forma de elefante.

O menino gostava de caminhar pelos baldes das salinas, quando passava pela prainha de Zé Filgueira, a caminho da Praia do Meio. De quebra, passava correndo por sobre as pirâmides de sal e saltava de uma para outra, sem qualquer temor, mesmo com uma distância de dezenas de metros.

Lembro que um dia, no finalzinho da tarde, algumas crianças – eu no grupo – inventaram que um pássaro estava no alto de uma árvore do nosso quintal. E apontavam para o alto, fingindo avistar o passarinho pulando de um galho para outro. O menino vibrava de encantamento, com seus olhinhos de jabuticaba. Que passarinho bonito!, gritava ao ouvir o cantar do pássaro inexistente. E nem ligava para o riso das outras crianças; ele, o menorzinho. Ele corria em volta dos outros meninos, apontava com seu dedinho para um galho, acompanhando os saltos do animal, e a meninada a rir de suas atitudes.

Nadar com os peixinhos, flutuar nas nuvens, caminhar pelos baldes das salinas, escalar pirâmides de sal, saltar – quase voando – de uma a outra, vibrar com um passarinho bonito que tentava esconder-se no alto de uma árvore, e ouvindo seu canto.

Tudo isso aprendi com Haroldo, meu vizinho e amigo de infância.

O único menino da minha cidade, na década de 1950, que sonhava ser paraquedista.

–          –

Quando Neil Armstrong colocou a bota extralunar e pousou sua planta no pó gelado da Lua, estávamos todos levitando diante do pavor da História. Todos, menos as crianças latino-americanas, que perguntaram em coro: Mas é a primeira vez? E abandonaram a sala frustradas. Pois, para elas, a conquista do espaço havia ocorrido fazia tempos. Mas só ocorreu ali.

Gabriel Garcia Marquez, Nobel de Literatura, em Eu Não Vim Fazer Um Discurso, da Editora Record.


Responses

  1. Mesmo sem conhecer os termos “maré de sizígia”, “cara de cavilha” e madrepérola “nacarada”, gostei muito desse texto. Sonhos de infância, mesmo tornados realidade não desaparecem do imaginário e ressurgem como instigadores de novos sonhos. Não deixe a maré de sizígia secar! Assis


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