Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 25, 2013

O BELO ZIGUEZAGUEAR DE UM ZIGUEZIGUE

Em casa, um senhor contemplava seu quintal verdinho e bem cuidado. Em frente, junto a um caramanchão, um bonito pé de pitanga exibia-se expondo seus frutinhos em fase de acabamento. Caramanchão é uma palavra estranha, pensou ele com ar de riso; pode ser escrita com um ou dois erres, por possuir forma dupla ou variante. No canto, um pouco distante, um abacateiro sisudo pede desculpas por ainda não ter frutos. Do lado direito, uma jabuticabeira aproveita as primeiras chuvas para uma renovação total, pois em dezembro planeja entregar seus frutos doces, pretinhos feito as asas da graúna, como gosta de brincar com a amoreira. As duas mangueiras lá no fundo, também por ser outubro, combinaram não comunicar às demais árvores qual seria a novidade daquela dezembro que se aproximava. Tudo indicava que tinha ocorrido um cruzamento de seus elementos reprodutores, e uma delas produziria a manga da outra, de um tipo diferente, para tumultuar o ambiente sempre sério do quintal.

O senhor de bermuda, em sua manhã fria no planalto central, ria ao imaginar tais eventos, e lembrou de algo que ocorrera em Areia Branca, pelos idos de um ano qualquer da década de 1950.

De calças curtas, suspensórios teimando em cair nos ombros, na desarrumação do quintal de sua casa, que ligava a Rua da Frente à Rua do Meio, descobriu-se também contemplando algumas frutas, poucas, de gosto travoso. No muro que separava o quintal de sua casa do de dona Hilda, mãe de Haroldo, metade de uma cacimba dava para um lado e metade para o outro. Essa cacimba fora construída por baixo do muro, em uma pizza aquática meio dona Hilda meio Zé Silvino. Uma solução respeitosa, nos moldes areiabranquenses.

Certo dia, nesse ambiente de areia solta, poucas plantas e calor no limite dos Celsius excedentes, um ziguezigue solitário apareceu sobrevoando uma bacia que estava sobre um varal de verdade, feito de varas entrelaçadas, que servia de quarador para a roupa da família. Lá, uma bacia feia, de alumínio encardido. No fundo da bacia, uma tábua servia de lastro, tornando sua feiúra mais completa. Na parte de cima, o alumínio escurecido pelo tempo tentava despistar o grotesco de seu fundo de madeira grossa e mal trabalhada.

O ziguezigue foi lá na frente, ziguezagueou em torno de uma bananeira e retornou, passando baixinho sobre a bacia, em um rasante sobre a água, tocando-a de leve com a ponta da cauda. Saiu todo fagueiro, sobrevoou uns pés de verdura que tentavam esconder os livores que se anunciavam em suas folhas quase sem vida. Novamente, passou sobre a bacia, e outra vez tocou a ponta da cauda na água meio salobra, que servia para o banho e a limpeza da casa e seus poucos objetos e utensílios. Junto a um pé de pinha que jamais dera um fruto sequer, um calango fingia-se de morto, prendendo a respiração e fechando os olhos, sonhando com  seu almoço de asas transparentes.

O senhor de bermuda, ao relembrar essa estória, sentiu-se culpado por estar em um quintal de grama verdinha, plantas se arrumando para um dezembro rico de frutas, mas sem um inseto sequer. Não contam as formigas cortadeiras e os mosquitos, estes em abundância, perturbando o sossego de Beiçola e de Ressaca, que, em um canto, encolhiam o couro das costas e balançavam a cabeça, mosquitos em profusão.

Compensando a falta de tais elementos da natureza, alguns macaquinhos – saguis ou soins – pulavam de galhos balouçantes, em uma exibição interesseira.

Ali, outubro de 2013, naquele chão plano com cara de campo de futebol, nada de ziguezigue, sapo ou borboleta. Ele soube que um vizinho andou matando as lagartas feias que, sem qualquer aval, tentavam escalar algumas plantas do seu quintal. Apesar da rima, foram dizimadas.

O senhor de bermuda também não tem visto vagalumes, aqueles bichinhos que nas noites escuras de sua infância riscavam o céu com suas faíscas azuladas. Tampouco tem visto os sapinhos pequenos e magros que, em sua meninice,  escondiam-se de predadores descarados, em conluio com as sombras da noite. Nunca mais avistou um cururu, com sua cara de vigia do tempo.

Ziquezigue

Quintal verdinho, sem borboletas nem ziguezigues.

O soim fugiu.


Responses

  1. Quando vejo mangueiras, cajueiros, abacateiros e outras árvores frutíferas do meu quintal, entre floração e “gestação”, compreendo as emulações entre as jaboticabeiras e amoreiras. A propósito, Evaldo, seu doce de jaca ferve na panela, aguardando sua chegada. Assis


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