Publicado por: Evaldo Oliveira | Outubro 4, 2013

SAUDAÇÕES A UM ALMIRANTE

Armando sempre se considerou um ecologista light, desses que curtem a vida no limite do bom para o melhor. Nos finais de semana, gostava de acampar nos arredores de cachoeiras de Goiás e Minas, em volta de Brasília.

De férias e junto com dois amigos, saíram de Brasília, com a irresponsabilidade ditada pelo descompromisso com relógio, calendário, GPS e CEP, além de cartão de crédito e telefone celular. Mochilas acomodadas no velho Uno Mille, que ainda hoje atende a todos os comandos. E saíram no rumo do desconhecido.

Visitaram cavernas e, Brasil afora, curtiram cachoeiras, conheceram cidades, grandes e pequenas. Estradas de todos os tipos foram vencidas, desde as excelentes, poucas, até as quase intransitáveis, maioria no caminho.

Finalmente, chegaram ao Nordeste. De longe, podiam imaginar – ou até sentir – a brisa com cheiro de mar escapando de praias sabidamente próximas.

Um vilarejo. Mas um vilarejo limpinho, onde os sinais do bem cuidado apareciam nos detalhes. Ruas limpas, com calçamento de pedras que pareciam indicar trabalho dos moradores. Em torno da igreja, cerca de cinquenta casas procuravam lugar para se acomodar, cada qual com seu jeitinho. Havia flamboyant junto à porta, outra com vasos de flores silvestres próximo à janela. Na esquina, com ar contemplativo, um cachorro preguiçoso com o queixo entre as pernas olhava de longe, sem qualquer resquício de curiosidade.

Logo, aproximou-se do grupo um senhor magro e alto, e perguntou se eles queriam tomar um cafezinho em sua casa. Cafezinho feito na hora, coado no filtro de pano, ressaltou. E apontou para sua casinha branca, logo à frente.

Da soleira da porta, percebia-se o bom trato da casa, com uma arrumação de dia de festa. Armando contemplou uma foto na parede. Nela, um senhor empertigado, com um bigodão perfilado sob um nariz empinado, dava as boas vindas ostentando uma bela farda de Almirante.

– Seu Manoel – perguntou Armando -, quem é esse militar na foto?

– Sou eu.

– O senhor é militar?

– Não. Sou civil. É que eu sou Almirante de Fandango, Comandante da Nau Catarineta, Chefe das Forças Desarmadas. Há muitos anos eu saio no nosso grupo de fandango, e me dou o direito de ser almirante.

Seu Manoel continuou mantendo ar de seriedade, com sua postura sempre ereta.

– Nesse instante, Armando, de forma respeitosa, ficou de pé diante daquele homem simples, juntou os calcanhares e fez continência para o velho almirante.

E não se falou mais naquele assunto.

O café estava uma delícia.

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Chegança – Grupo de Penedo (Foto da internet)

O poema – A Nau Catarineta, de onde brotou o Fandango ou Chegança – narra as desventuras dos tripulantes da nau Santo Antonio, que saiu de Pernambuco no ano de 1565, com destino a Lisboa, levando a bordo Jorge de Albuquerque Coelho, filho do fundador de Pernambuco. Durante a longa travessia marítima, os mantimentos se esgotaram, com tentação diabólica e intervenção divina. Ao final, a nau alcança o seu destino


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