Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 20, 2013

APENAS UMA VEZ NA VIDA

 

Na década de 1980, os médicos da Fundação Sesp que eram designados para trabalhar na região Norte passavam – antes de assumir suas funções – por um treinamento de noventa dias em um centro de capacitação, que poderia ser em Marabá, Santarém, Altamira ou Abaetetuba. Após o treinamento, o profissional poderia ficar no local onde fora treinado ou ser enviado para outras cidades.

Dr. Fameron, nascido, criado e formado em Belém, médico clínico com relativa experiência em cardiologia, foi admitido como médico e designado para receber treinamento em Marabá. Na Unidade Mista, com sessenta leitos, havia um cirurgião, um pediatra, um anestesista, dois clínicos e três gineco-obstetras, além de enfermeiras e auxiliares de enfermagem.

Independentemente de sua formação original, os médicos, durante os plantões, tinham que dar assistência aos pacientes que compareciam à unidade de saúde em busca de atendimento. Como parte do processo de treinamento, os profissionais eram convocados a participar dos procedimentos mais importantes, em especial os cirúrgicos. Os pediatras, por sua vez, repassavam conhecimentos de sua especialidade ao restante do grupo, com ênfase nas dosagens e diluições das medicações das crianças, com suas especificidades inerentes às faixas etárias e ao peso.

Nos finais de semana e feriados, permanecia apenas um médico de plantão na unidade de saúde. Ele fazia a visita aos pacientes internados e ficava responsável pelo atendimento de urgência dos pacientes que procuravam aquele serviço. De prontidão, um motorista e uma caminhonete.

Os casos de urgência quase sempre deviam-se a eventos de alta gravidade, fossem clínicos ou cirúrgicos. Facadas, lesões por arma de fogo, acidentes, perfuração da cavidade abdominal, partos, abortamentos e picadas de cobra eram os mais comuns. No caso de um evento que exigisse cuidados de um outro profissional, o médico de plantão convocava o especialista, e os casos eram resolvidos com relativa tranquilidade.

Certa noite, em um final de semana prolongado, o Dr. Fameron, de plantão, fora chamado para atender três gestantes em trabalho de parto. Uma primigesta, com o feto já coroando o períneo, recebeu os cuidados do médico e da enfermeira, e o parto ocorreu sem qualquer intercorrência. A segunda, multigesta, teve um parto rápido e tranquilo, realizado pela enfermeira.

A terceira paciente, também multigesta, estava com o trabalho de parto estacionado, exigindo cuidados constantes e trazendo motivos de preocupação para o médico, que o sabemos clínico geral. Tentou contatar algum obstetra da equipe, mas não conseguiu êxito, apesar da insistência do pessoal do apoio administrativo.

Preocupado com a lentidão do trabalho de parto, o médico monitorava as contrações uterinas e os batimentos cardíacos do feto. Em dado momento, percebeu que o feto entrara em sofrimento, exigindo uma providência imediata. Uma cesariana.

Há cerca de dez dias havia chegado à unidade de saúde um médico hematologista, naquele momento repousando em seu quarto. O Dr. Fameron determinou o preparo imediato do centro cirúrgico e  convocou o hematologista para atuar como instrumentador.

Sem jamais ter feito uma cesariana, o médico iniciou o procedimento com a participação do hematologista, de uma enfermeira competente e de uma auxiliar de enfermagem. Por precaução, evitou a incisão à Pfannestiel e iniciou a incisão do abdome com a técnica tradicional. Com um natural excesso de cuidado, fez a incisão por planos, logo chegando ao útero. O feto ansiava por nascer, e logo seu rostinho bonito emergiu do meio das incertezas. O seu berro ecoou por toda a unidade, e uma emoção se apoderou da alma do médico em início de carreira. Com o coração em desalinho, o agora obstetra foi fechando a cavidade, novamente por planos, conforme aprendera nas cesarianas em que atuara como auxiliar.

No dia seguinte, o diretor da unidade de saúde, constatando o excelente resultado da cirurgia, convidou o Dr. Fameron para prosseguir com seu aprendizado de obstetrícia e passar a fazer parte da escala de cirurgia. O médico, imaginando toda a agonia do dia anterior, expressou-se com ar de alívio:

– Doutor, há coisas que devemos fazer somente uma vez na vida.

Cesariana, nunca mais!


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