Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 6, 2013

UMA IGREJINHA EM MEUS ESCRITOS

 

Na Rua da Frente, olhando para o rio Ivipanim, distingue-se uma igrejinha que tem o seu patamar quase que beijado pelo rio, nas marés cheias, com o recorte do manguezal a lhe emoldurar a fachada, vista de longe. É o lugarejo de Barra, do outro lado do rio, vislumbrada do patamar da velha igreja de Areia Branca, do lado de cá do rio, como se uma admirasse a outra, sendo esta bem maior.

Foi assim que me expressei ao narrar as aventuras de Osório – Quem Matou Paracelso? -, filho de um areiabranquense, em sua saga para tentar descobrir quem, finalmente, matou o médico e alquimista – amigo de Nostradamus e Lutero – encontrado morto nos dias agitados que viveu a Europa no ano de 1541. O personagem vê-se envolvido com um grupo político/religioso em Brasília, e viaja para a Europa. Em Santiago de Compostela, norte da Espanha, o desfecho.

O episódio inicia-se no patamar da igreja de Areia Branca, tendo a igrejinha de Barra como pano de fundo, do lado oposto do rio, e termina na catedral de Santiago de Compostela. Porém aquele olhar vago de um menino da Rua da Frente, no rumo do manguezal do outro lado do rio, tentando vislumbrar a igrejinha de Barra, quase se perdera no tempo. Aqui, já narrei as aventuras de Fumaça, um cãozinho que se aventurou em uma canoa e encontrou abrigo entre as paredes daquela pequenina igreja que eu jamais conhecera.

Agosto de 2013, férias, manhã de sol forte. Em frente à igreja matriz de Areia Branca, do mesmo cais da minha infância, onde outrora atracavam barcos conduzindo frutas frescas e pequenos animais, ao lado de canoas ainda ostentando sua vela branca triangular, a depender do vento para suas aventuras, saímos no rumo de Grossos, em uma balsa, veículo e gente suingando sobre o rio. De lá, por estrada de pouca monta, chegamos a Barra. Ao longe, a igrejinha parecia vir ao nosso encontro.

Fiquei contemplando aquela igrejinha singela, bem cuidada, face voltada para os manguezais onde, ao fundo, do outro lado do rio, a igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição brincava de esconde-esconde, em um jogo de vai e vem com o conluio de galhos e folhas. Em sua lateral, dois cães roubavam uma soneca ao tempo, à semelhança de Fumaça, um cãozinho de terras áridas, que um dia ali se estabeleceu em exílio voluntário. Desfazia-se, sob um ardente sol de meio dia, um mito. Ou melhor: realizava-se um sonho. Finalmente, a igrejinha misteriosa de minha infância mostrava-se inteira e bela.

Igrejinha de Barra

No retorno a Grossos, sentamos na mesa de um restaurante típico de um vilarejo, surgido ao acaso. Um dos  amigos, para minha surpresa, soltou sua voz de barítono, afinadamente plena, naquele almoço improvisado. Só depois tomei conhecimento de sua fama de seresteiro das calçadas de Areia Branca, nos idos de 1960, onde expunha por inteiro sua paixão pela vida. E pelas moçoilas de então.

Uma igrejinha plena de si. Um sonho que se tornou real em mim.


Responses

  1. Meu caro Evaldo,
    O seu texto é belíssimo. Desliza suave e, de repente, transforma-se num
    poema:
    Confira aí, a partir de um parágrafo que começa com a frase “em agosto de
    2013” e fala no CAIS DA MINHA INFÂNCIA e continua no parágrafo seguinte.
    Coisa de craque.
    Cais da minha infância poderia ser o título de um poema, um livro uma
    canção… parabéns, Garoto. Você é bom nisso.
    Abs, geniberto


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