Publicado por: Evaldo Oliveira | Julho 12, 2013

CORAÇÃO DE ESTUDANTE

Danilo era um paraense apaixonado pelas coisas da terra; um paraense quase comum. Nos dias de semana, os estudos em casa, as aulas na Faculdade de Medicina da UFPA. Nos finais de semana, após o jogo de futebol, a rapaziada saía à noite para se divertir. Os locais preferidos pela juventude eram o Pará Clube, a Assembleia Paraense, o Círculo Militar, o Bancrévea ou o Bar do Parque, que fica na Praça da República, ao lado do Teatro da Paz. Por oportuno, informo que Danilo era o melhor jogador da sua turma.

Nessa época, os estudantes secundaristas e universitários de Belém adotaram o Bar do Parque como local preferido para seus encontros. Tombado pelo Patrimônio Nacional, aquele local abrigava estudantes, jornalistas, poetas, escritores e aposentados de todos os naipes. A sombra de suas mangueiras atraía famílias inteiras em seus passeios, fossem durante a manhã, ao cair da tarde ou à noite. Hoje, o local funciona como ponto de encontro de desocupados, prostitutas, usuários de drogas, traficantes e de estrangeiros sem rumo nem ponto futuro.

Nas noites de sexta e sábado, em alguns momentos os estudantes escapavam, qual gás de cozinha, de forma sorrateira, no rumo do submundo, no bairro da Condor, onde funcionava o Palácio dos Bares. Lá, o reduto do mundo boêmio, promíscuo e marginal.

No dia 8 de dezembro de um ano da década de 1970, aconteceu o tão esperado baile de formatura no Pará Clube, em uma noite que fechava os festejos de Nossa Senhora da Conceição. Foi um acontecimento no limite do encantamento, do mágico, do transcendental, glamoroso, animado pelos sucessos de Renato e Seus Blue Caps. A festa desvirginou a madrugada quente de Belém, terminando somente quando o sol pedia passagem, empurrado pelo calor úmido daquela região.

Exatamente 25 dias depois da festa de formatura, Danilo, contrariado, mudava-se para São Paulo. Fora aprovado para Residência Médica em Neurologia, seu sonho de estudante. A maioria dos seus colegas de turma optou por permanecer em Belém, atraídos pela oportunidade de trabalhar nos municípios do interior, através da Fundação Sesp.

Em São Paulo, a saudade de casa e dos amigos, os telefonemas quase diários. Os estudos tomavam a maior parte do seu tempo. No peito, o sonho de uma vida melhor.

Em uma noite de sábado, Danilo acertou com os amigos do trabalho sua primeira saída para conhecer a noite paulistana. Pensara em sair para espairecer a mente, divertir-se um pouco. Antes, um banho. Como bom paraense, adquirira o hábito de tomar banho ao menos duas vezes ao dia.

Conforme combinado, os amigos chegaram e tocaram a campainha do apartamento. Ninguém atendeu. Após alguns minutos, subiram e bateram na porta. Chamaram os bombeiros, pois sabiam que ele estava em casa. A porta foi arrombada, e o quadro da realidade: no banheiro, ainda com o chuveiro ligado, o corpo de Danilo caído. Morto por uma descarga elétrica.

Um sonho de estudante.

Uma descarga elétrica de um chuveiro.


Responses

  1. Um texto bastante didático para os que desejam enveredar-se no universo dos cronistas. Bem concatenada, a crônica, no final culmina com um fato bastante corriqueiro e que se deve à falta de manutenção e prevenção dos usuários. O final em tela estimulou nossas glândulas lacrimais; mas toda crônica é assim, umas deixam nossos olhos marejados, outras nos levam a esgares similares a horrendas caretas – quando se trata de uma chocante tragédia -, outras nos levam a sorrir e até mesmo a gargalhar. É assim o maravilhoso Mundo das Crônicas. Tudo isso, como é sabido, faz parte da vida, são os ‘altos e baixos’ de nossa existência terrena.

  2. Dr Evaldo , nao sei se o que escreveu nesta cronica , foi um fato veridico, ou somente uma imaginacao baseada nas tragedias diarias; Mas nao deixou de me impressionar e o meu primeiro pensamento foi para o que eu sempre repito, aos meus amigos e familiares. Viva o momento. Nao deixe que a mocidade e as oportunidades passem sem agarra-las e aproveite tudo de bom que a vida lhe proporciona. Para morrer , basta estar vivo.
    Um abraco.

    • Est

      Enviado via iPhone

    • Esta estoria é verídica.

      Enviado via iPhone

  3. Dr. Evaldo, bela crônica. Deixa-nos num `suspense` quanto ao final que, infelizmente, foi muito triste para com um esforçado jovem que caminhava para sua realização numa profissão tão promissora,
    É a isso que chamo de destino.


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