Publicado por: Evaldo Oliveira | Junho 22, 2013

UM MÉDICO EM SERRA PELADA

Médico em Marabá, pelos idos de 1982, Dr. Claudio Brasilis trabalhava, alternadamente, trinta dias na cidade e trinta dias na Unidade de Saúde de Serra Pelada, entidade pertencente à Fundação SESP, do Ministério da Saúde. Com o garimpo em efervescência, em plena selva, no interior do Pará, a equipe de saúde lidava com casos cada vez mais frequentes  de malária, tuberculose e hepatite A.

Em uma tarde quente de uma segunda-feira atribulada, em pleno agosto movido a ventania, um senhor de cinquenta e cinco anos, aparentando mais de sessenta, chegou em um táxi, conduzido por uma comitiva.

Na linguagem dos confins do mundo, táxi consistia em uma vara comprida e forte, onde se armava uma rede de uma extremidade a outra. Comitiva era um conjunto de oito a dez homens, que se revezavam em duplas, conduzindo a vara nos ombros, pois os pacientes eram homens pesados, e a distância entre o garimpo e a unidade de saúde era grande.

Examinando o paciente, logo o Dr. Claudio Brasilis chegou ao diagnóstico: hepatite A, forma fulminante. O homem, mesmo com os sintomas debilitantes da doença, continuou trabalhando até cair prostrado. A ânsia pelo ouro, a luta pela sobrevivência, além do medo de abandonar o barranco, faziam com que os doentes chegassem à unidade de saúde já em estado avançado de seus males.

O paciente, em estágio final da hepatite, resistiu por mais duas horas, e faleceu. O Dr. Claudio convocou os dois filhos do morto para acompanharem o corpo até Marabá, para liberação pelo IML. No final da tarde os dois rapazes chegaram. Eram dois jovens fortes, um com vinte e dois e o outro com vinte e quatro anos. Informados de que um dos dois teria que ir para Marabá, assim se expressaram:

– Nós avisamos para esse velho cabeça dura que o trabalho aqui era pesado, e ele não nos escutou. Dizia que queria juntar dinheiro para construir uma casa lá onde nossa família mora, para dar mais conforto para nossa mãe. Nós não vamos abandonar nosso barranco. Doutor, mande o corpo sozinho para Marabá, pois nós não iremos.

– Lá em Marabá – ponderou o médico – ele vai ser enterrado como indigente.

– E qual é o problema? Aqui, doutor, somos todos indigentes. Era só isso que o senhor queria com a gente? Até logo. Vamos embora!

Ao perceber que os filhos do morto haviam se retirado, um senhor mais velho, com cara de espanto, e que havia participado da comitiva, aproximou-se do Dr. Carlos e assumiu que era muito amigo do morto, e que não permitiria que ele fosse enterrado como indigente. Comprometeu-se a acompanhar o corpo do amigo até Marabá e a providenciar seu traslado para a cidade de origem daquela família.

No calcanhar do mundo, um pai de família consumido por um sonho.

Dois filhos afetados por uma animalesca indiferença. Embrutecimento.

Um amigo. Tudo o que a vida lhe deixou.


Responses

  1. É.. meu prezado Doutor e Amigo. Será mais fácil descobrir a cura do câncer do que entender a complexidade da dinâmica do ser humano. Quem disse que somos semelhantes? Só se for estaticamente falando. Um abração e… agosto está chegando.


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