Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 17, 2013

APRENDI COM A VIDA

Crescer em uma cidade do interior – ao lado de suas limitações – tem vantagens que se incorporam ao nosso modo de ser, ajudando na moldagem da nossa personalidade, repercutem no nosso comportamento e respingam em nosso dia a dia, seja na vida social ou no trabalho.

O andar livre pelas ruas, as brincadeiras simples, com ares de inocência, utilizando elementos do trato diário como brinquedos, a camaradagem, tudo isso se incorpora ao nosso modo de ser e passa a fazer parte de nosso patrimônio pessoal. Daí surgirão o sentido que daremos às coisas, aos objetos, ao que veremos aqui e alhures. Quando, no interior de um país distante, nos deparamos com algo inusitado, instantaneamente fazemos um link com nossas experiências da infância ou com o que aprendemos na escola. Satisfação.

O jogo com o pião, as peladas disputadas nas ruas, o pique-pega, o uso do fura-chão nas areias dos pós-chuvas, as cantigas de roda, as bancas de castanha de caju, os barquinhos nas lagoas produzidas pelas enchentes, as conversas na pracinha, as brincadeiras no rio, os primeiros amores, os encontros no portão, o escurinho do cinema. Quase todos os nossos brinquedos eram feitos pelas próprias crianças. Tudo isso teve e terá um valor que desconhecemos, mas os sabemos importantes. Camaradagem. Respeito.

Essas brincadeiras, quase sempre coletivas, ajudavam na formação de conceitos que extrapolam a infância, repercutindo em nosso modo de ser: daí brotaram a noção de  respeito pelas pessoas, a camaradagem, o senso de alegria com coisas simples, a valorização de pequenos seres quando brincávamos nos quintais de então.  Simplicidade

As brincadeiras de roda, as cantigas, as músicas que surgiam de forma despretensiosa e sem autores definidos ajudavam a enfeitar nossa infância. Mesmo as atividades individuais, como puxar carrinhos construídos com latas de óleo ou de leite em pó, eram realizadas em grupos, com disputas onde todos ganhavam. Amizade.

Na Rua da Frente, onde morei quando criança, havia um comerciante – bodegueiro – muito espirituoso. Certo dia, chegou um cliente e perguntou se havia fumo de rolo. Respondeu que sim. E o freguês perguntou se o fumo era do bom. Resposta: eu só vendo fumo do bom. Nisso, o cliente soltou um pum. O dono da bodega ficou irritado, porém calado. O cliente pediu para provar o fumo. Mascou um pouco e perguntou:

– O senhor não tem um mais forte?

– Não, só tenho o de peidar! O de cagar acabou!

Desse modo, a vida me ensinou coisas de real valor para meu convívio com as pessoas, seja nos encontros sociais ou no trabalho. Daí, o sentido que dou a esta expressão que, imagino, nascida dentro de mim: a alegria dos percussionistas. É que aprendi a perceber e dar valor a essa demonstração descompromissada com a alegria, que nos contagia e emociona. É só prestar atenção.

Outra expressão que trago sempre comigo, nascida talvez de alguma leitura: nada merece a aflição de um segundo de incertezas. Essa postura nos ensina a parar um pouco, a meditar sobre nossos momentos de aflição. O que não tem jeito, está feito. Não adianta afligir-se ou perder o controle com coisas que já aconteceram. A questão é ajudar, tentar resolver os imbróglios desse evento imprevisto. Outra aprendizagem: ao invés de falar da escuridão, acenda uma vela. Alguém falou isso aqui.

Aprendi que o riso tem que ser sério, real, espontâneo, natural. Nada de sorrisos de ri-ri, moldados a pedido de um fotógrafo sem compromisso com nosso ser. Então, que o sorriso flua bonito, vindo de dentro, com gosto de vida e espectro de alegria. Há dias e locais em que não queremos rir. Sinceridade

Solidariedade, respeito, sinceridade, valorização das amizades.

Coisas que aprendi em minhas brincadeiras de criança.


Responses

  1. Dr Evaldo eu estou quase certa que escrevi um comentario sobre este seu texto que tanto me agradou, No comentario, eu dizia, que apesar de nossas brincadeiras serem diferentes , mas que eu tambem tinha aprendido muito com a vida que levei em
    Areia Branca, no curto periodo em que la vivi. Espero que nao tenha se perdido. A net as vezes tem as suas falhas, . Talvez o senhor encontre. De qualquer forma Adorei o que o senhor escreveu e sempre com tanto carinho pela nossa querida terra.
    Um abraco.


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