Publicado por: Evaldo Oliveira | Maio 4, 2013

MÚSICA PARA VIAGEM

 

A vida não está fácil, todos sabemos. Na correria do dia a dia, costumamos esquecer alguns detalhes, pequenos, talvez. É um cumprimento, um bom dia, um aperto de mão, uma palavra. Imagino que o silêncio interpessoal medeia todos esses eventos.

Acometida de um câncer agressivo de mama, não responsivo aos mais diversos protocolos terapêuticos, dona Ismênia resistia na medida de suas escassas forças. Há havia acometimento de vários órgãos, e o display que indicava sua vontade de viver continuava piscando entre o amarelo e o vermelho.

Dona Ismênia tinha duas imposições: não aceitava o almoço do hospital e não dispensava a presença do marido, Valter, médico cardiologista, para dormir em seu quarto todas as noites. Sem isso, sentia-se uma pessoa abandonada, jogada na sarjeta da vida, costumava dizer.

Dr. Valter, paraense de nascimento, adaptara-se perfeitamente aos costumes de Brasília, e nos fins de semana fazia cócegas nas costelas de seu violão, ao tempo em que relembrava velhos sucessos da MPB. Nesses momentos de retrofilia, ressurgiam músicas de Sílvio Caldas, Orlando Silva, Cartola e Paulinho da Viola. Noel Rosa era novato em seu repertório.

Com o agravamento da doença, houve uma piora dos sintomas, em especial da capacidade de se manter lúcida. O semblante de dona Ismênia mudava, e um sorriso quase invisível iluminava seu rosto, quando o Dr. Valter chegava. Como de costume, um beijo na testa, as mãos de leve pelo rosto e muita conversa. Somente ele falava. Ela, desligada, em sua letargia, quase não se virava para os lados.

Sábado à noite, uma chuvinha fina caía lá fora, e as nuvens carregadas deixavam o tempo mais escuro. Ao longe, pequenos trovões pipocavam sem localização determinada, ribombando no oitão do hospital.

Naquele momento, dona Ismênia, em um raro momento de lucidez, pediu ao marido, com voz vacilante:

– Canta uma música bonita.

– Qual?

– Qualquer uma das que eu gosto, falou com dificuldade.

Valter acomodou-se na cadeira ao lado e, baixinho, com sua voz de barítono aposentado, começou a entoar a música que havia embalado o romance do casal: eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar…

Na manhã seguinte, Valter providenciaria o enterro de Ismênia.

No caixão, um rosto sem sinais de sofrimento.

 

EVALDO ALVES DE OLIVEIRA

Médico Pediatra e Homeopata

Sócio Correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do RN


Responses

  1. Quem, antes, fazia cócegas nas costelas de seu violão, aprendeu a fazer cócegas na alma de sua Ismênia… Entre o amarelo e o vermelho, o display da vontade de viver refletia sobre Ismênia as cores da esperança. Daí um rosto sem sinais de sofrimento.
    Meu caro Evaldo, você refinou sua sensibilidade. Será efeito de sua nova condição de avô?
    Abraços, Assis Câmara

  2. Caro Prof. Assis Câmara, esta estória é verdadeira, e comovente. Meu neto deverá nascer até o dia 15 de maio. Um abraço e obrigado pelo comentário recheado de poesia, como sempre.

  3. Meu prezado amigo, endossando o que disse o Francisco Câmara, acima, você extrapolou na emoção, Você transformou uma situação bem banal e repetitiva num comovente relato. Assim como o amigo, mais uma coisa em comum teremos. Serei avô pela primeira vez em agosto. Estou vendo que você o será em maio. Aliás, maio é o mês de meu nascimento (dia 27). Ao lado do Chico Brito, em agosto seremos 3 vovôs. Sobre sua crônica das fotos, no Blog do C. Alberto, estou pensando que poderíamos – dentro do possível – incrementar comentários sobre antigas fotos de pessoas de A. Branca, que acha? Vou consultar meus velhos álbuns e lacradas caixas de fotos. Até agosto grande doutor das curas e das letras!

  4. Dr. Evaldo, fico ansiosa aguardando algo teu para ler e, assim, alimentar meu espírito com tua sapiência. Às vezes, vou adiando, um pouco mais, para entrar neste blogue, sentindo-me fartamente suprida pelo que encontro no blogue de CA. Desta forma, tentando pausar as emoções que afetam minha estrutura interior, sem, com isto, pretender superdimensionar a fragilidade que põe em risco a saúde da minha alma. Não sou médica para me diagnosticar, mas conheço minhas limitações, especialmente quanto a minha sensibilidade.
    Teu relato é comparado a uma canção de ninar…e o proceder do Dr Valter faz contraste com uma boa parte de homens desalmados presentes entre nós.
    Sinceramente, quisera ter um destes nos meus últimos momentos por aqui, evitando expor meus filhos a tal situação.
    Um grande abraço e que O SENHOR alimente, permanentemente, teu poder de inspiração que tanto nos orgulha.

  5. Emocionante o seu relato, Dr Evaldo.
    A vida nos proporciona muitos momentos .Tantos de alegrias como de sofrimentos.
    Mas na hora do ultimo suspiro, ter ao seu lado a pessoa amada, e o mais ardoroso desejo de cada um de nos
    Dr Walter e seu violao deu a sua Ismenia uma passagem calma e feliz
    Parabens pela sensiblilidade.
    PS .
    Congratulations pelo novo titulo .Vovo e a palavra mais abencoada e todas as vezes que a escutar, o seu coracao vai cantar de alegria
    Abracos.

  6. Caríssimo Evaldo,
    Como Você está este cronista cada vez melhor, eu também tenho me emocionado cada vez mais nestas leituras, inclusive, é importante que se diga, por conta dos comentários, tão belos, verdadeiros, únicos!
    Continue, sempre assim, nunca interrompa, porque “Você se torna eternamente responsável por aquele a quem cativa”…
    Garoeiro

  7. Texto comovente, bem escrito. Tanto que enquanto lia, cheguei a visualizar a cena em um quarto de hospital. Mas destaco o título que você deu à crônica. Isso é o que eu chamo de pertinência. (diria: “pertinência com sutileza”).


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