Publicado por: Evaldo Oliveira | Abril 19, 2013

E VOCÊ, ONDE ANDA?

Quando passamos por um lugar qualquer, aí deixamos – além de pegadas – nossas células de descamação, que são muitas. Nossos pelos ficam pelos caminhos, nossas secreções e excreções também. Nos mais distantes lugares nossos dejetos espalham um DNA único, o nosso. Os pássaros e outros animais alimentam-se desses elementos, que passam a servir de alimento para pessoas que jamais conheceremos, ou são incorporados ao solo, formando compostos, que serão retirados por raízes e farão parte de frutas e legumes que novamente serão ingeridos por seres humanos. E assim vamos fazendo parte deste imenso mundo, inclusive da estrutura das pessoas.

Não estou interessado em saber em quais partes deste mundo espalhei minhas células ou dejetos. Apenas uma pergunta descompromissada neste sábado pós-jet lag antifuso horário, pois fragmentos de mim ficaram com pessoas com quem convivi e equipamentos com os quais lidei: onde estão os garotos e garotas de minha infância que, comigo, partilharam alegrias e desventuras? No contrafluxo do tempo, tento identificar rostos, semblantes, nomes hoje quase sob o domínio do esquecimento, já invadidos pelos pucumãs que insistem em povoar nossos recantos de lembranças.

Partilhar alegrias. Lembrei-me de Bentinho – Dom Casmurro -, ao falar de suas conversas com Escobar, ocasião em que Capitu lhe respondeu: você não tem o direito de contar um segredo que não é só seu, mas também meu.

Nesse contexto,  preocupa-me falar de outras pessoas, que comigo dividiram segredos da minha infância. E aflora uma questão: onde estarão aqueles meninos que nadavam no rio Ivipanim e faziam marcação cerrada aos barcos dos beijus, capturando mangas e bananas atiradas para a molecada que afluía à Rampa? E os garotos que, de forma acrobática, saltavam das barcaças nas marés de sizígia? E aquele menino prodígio que, com seu acordeon, enchia a cidade de música e seus pais de esperança?

Por onde andará Esgalamido, um menino forte e brigão que provocava a molecada na Rua da Frente, e com quem tive uma das poucas brigas? E aquele menino magricela que testemunhou o exato momento em que eu quebrei o vidro de um quadro grande, com uma fotografia, que acabara de chegar, e encontrava-se sobre a mesa de uma professora no Grupo Escolar? Fui delatado. Paguei caro. E nem sei seu nome.

E aquela menina bonita do Circulo Operário, que alugava minha visão todas as manhãs durante as aulas, caneta-tinteiro na carteira e a ansiedade pela hora do recreio. Qual seria o seu nome? Em um baile de carnaval no Palacete Municipal, uma menina me fez, por um momento, acreditar que a vida poderia ser bela, sob os eflúvios dos lança-perfumes espargidos no salão 42 graus. Também não sei seu nome, nem lembro de algum detalhe de seu rosto.

Em que cemitério náutico estarão as barcaças da minha infância, os iates de velas brancas que riscavam a lousa ondulante deste rio Ivipanim, que nasce em uma serra, caminha, sofre terríveis agressões nos lugares que abençoa com suas águas, para se entregar ao mar, resfolegante e turvo?

Alguém me responda: onde andarão os cataventos de minha infância, com seu espectro de monstro da cabeça redonda e cauda de quero-quero gigante, amedrontando passarinhos de canela fina e olhinhos desconfiados?

Em respeito a Capitu, todos nos calaremos sobre segredos compartilhados, em que um dos lados tenta relembrar encontros e cochichos no portão, na calçada ou na pracinha. Ah, e no escurinho do cinema.

Células descamadas, secreções, excreções; perpetuação  do corpo pelas veredas da vida. Conversas no portão, papo na pracinha; a alma partilhada. Com a licença de Capitu.

 

 


Responses

  1. Caríssimo Evaldo,
    Parabéns!
    Dá gosto ler o que você escreve…
    Quando à feliz comparação da crônica, tenha certeza que, escrevendo assim, esse literário DNA que você esparge, bem mais sentido há de dar à existência, que o outro, biológico…
    Ou, não?

  2. Dr. Evaldo, relendo, não considero teu escrito uma crônica apenas, mas uma verdadeira obra prima a ser relida incontáveis vezes. Parabéns!


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