Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 16, 2013

CURRICULUM VITAE DE CRIANÇA

 

Menino, o que você fez na vida, quais suas perspectivas, seus sonhos, seus interesses, suas marcas, seus arranhões, suas cicatrizes? Afinal, quais as suas credenciais? Desse modo, fui inquirido pelo Destino, em janeiro de 1960. É que eu estava de mudança para Natal, e uma avaliação de possibilidades fazia-se necessária. Uma espécie de planejamento estratégico sem metas nem ponto futuro. Um Curriculum Vitae infantil.

Sr. Destino, o que fiz, nesses catorze anos de vida, foi pouco, face aos perigos a que a vida me expôs. É que não tenho grandes posses, e meu círculo de amizades é pequeno. Mas conheço bem os perigos dos caminhos, os riscos das encruzilhadas, a doçura do afeto e o gosto travoso do fel da indiferença. Só tenho catorze anos, mas trago comigo a dureza do puro aço, forjado nas labaredas das dificuldades.

Durante o ano de 1952, Sr. Destino, estudei no Círculo Operário, uma escola muito simpoles. Lá, um semestre na Carta de ABC e outro na Cartilha. Naquela escolinha conheci as sabatinas, em que o peso da palmatória se sobrepunha ao rigor do bom senso. Quem acertava, batia na mão do outro. Conheci também o castigo de joelhos em cima do milho. No contraponto, aprendi a cantar o Hino Nacional e a ser solidário, a repartir o espaço com os colegas e a lavar as mãos para merendar, além de conhecer os princípios da disciplina.

Estudei no Grupo Escolar Conselheiro Brito Guerra nos anos de 1953, 1954, 1955, 1956 e 1957, quando fiz o Exame de Admissão, onde boa parte da molecada perdia o rumo, e fui estudar na Escola Técnica de Comércio por dois anos. Lá, conheci um pouco da estupidez humana. Incontável.

Senhor Destino, veja como é curto o meu relatório. Três itens. Aqui, não fiz citações sobre atividades fora da escola, as extracurriculares. Não falei das coisas da vida, da felicidade do encontro e das dores dos dias de lágrima. Eu, criança, tomava conta de uma bodega junto com meu pai. E havia plantão todos os domingos. E feriados também.

Não incluí nesse relato os medos que as noites escuras traziam, amplificando os ruídos vindos do rio que corria em frente, travestindo-os em estrondos de trovão. Os barulhos vestiam roupa de fantasma e ficavam a noite inteira cortando meus sonhos bons, incluindo no roteiro assombrações e devaneios aterrorizantes.

Do mesmo modo, não entraram minhas visitas ao mercado público, quase todas as manhãs, quando ficava assistindo aos repentistas se digladiarem em lutas argonáuticas. Em outros momentos, assistia aos  encantadores de serpentes e aos vendedores de remédios milagrosos que, com um microfone no pescoço e espuma  no canto da boca, comercializavam  falsas ilusões. Não constam os passeios pelas praias de águas limpas, admirando os siris em sua exibição matinal, expondo suas patinhas cortadeiras que muito me assustavam. Também não constam as estórias do bicho papão que comia o fígado das crianças nas noites sem lua.

Não estão incluídos meus empregos de criança. Sim, empregos de criança. Como menor trabalhador, prestei serviços em um consultório de dentista e no de um médico, trabalhei como auxiliar de envernizador em uma pequena fábrica de móveis, e como auxiliar de empacotador nas Lojas Paulista.

No meu curriculum vitae não consta o trabalho de agricultor urbano quando, nas manhãs de domingo, saía com meu pai para trabalhar em sua roça de milho e feijão. Lembro dos pezinhos brotando da terra, rachando o chão fértil, acompanhava seu crescimento, o surgimento dos pendões, o cheiro do verde, as vagens de feijão botando o pescocinho para fora, e a melancia ensaiando sua festa de 15 dias, junto com uns melõezinhos invejosos na ponta da leira, com seu olhar ictérico.

Finalmente, não consta o medo que tinha de passar pela Rua do Cemitério. Lembro que, certa vez, no carnaval, quando passávamos em frente ao cemitério, com o Bloco da Chica Pelada, capitaneado por meu irmão Mauro, ter sentido nas canelas finas um formigamento, tipo repuxão, quando gritaram que as almas estavam saindo para entrar no nosso bloco.

Este é o meu curriculum vitae, Sr. Destino. E vou para Natal pensando em vencer na vida, e meu pai está doente.

Que Deus o ajude, balbuciou o elemento desconhecido.

E dirigiu-me um terno olhar de fautor, antes de sumir. Exatamente seis anos depois, estaria me matriculando no curso de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Por tudo isso, o meu júbilo pela vida.


Responses

  1. Caríssimo Evaldo,
    … o teu júbilo pela vida, enquanto aqui assim o gravas, também é nosso!
    Garoeiro

  2. Evaldo, seu interlocutor (a quem você prestava contas de sua vida pregressa e apresentava suas expectativas da futura) não é um ser autônomo, como o concebo, mas, digamos assim, uma “entidade” moldada pelo TEMPO, esse sim, obra direta do Criador. Assim, o que se poderia chamar de “acaso” ou “obras do destino” são, na verdade, DESÍGNIOS DO CRIADOR. Celebremos, pois, a vida. E não esqueçamos de agradecer a Deus por seu dom.


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