Publicado por: Evaldo Oliveira | Março 1, 2013

OLHAR 121

A psiquiatra recém-formada tinha um sonho acalentado desde o início do curso: trabalhar em um serviço de emergência psiquiátrica. Alguns meses depois de sua especialização, foi trabalhar como plantonista do hospital psiquiátrico em uma cidade do interior de São Paulo.

Certa noite, por volta das onze horas, foi avisada de que uma ambulância estava conduzindo um paciente bastante conhecido daquela unidade hospitalar. Tratava-se de Jorjão – nome fictício -, um sujeito forte, medindo dois metros e seis centímetros de altura, portador de transtorno bipolar, e havia desenvolvido um surto maníaco. Em casa, batera muito no pai e destruíra quase todos os móveis.

A enfermeira chefe e o pessoal de apoio do hospital foram avisados. Em poucos minutos, uma ambulância adentrava o portão do estabelecimento, conduzindo o paciente. O veículo dirigiu-se para a entrada de um grande espaço, tipo corredor, construído para receber pacientes agressivos. O veículo parou, e a Dra. Lúcia logo percebeu o tamanho da encrenca. O paciente era tão grande que, sentado ao lado da janela, do lado de fora somente se conseguia ver parte do ombro e o tórax. E, então, iniciou-se um diálogo difícil e demorado.

– Oi, Jorjão, vamos descer para tomar um café?

– Se eu descer, vou quebrar tudo, inclusive a doutora.

E a conversa prosseguiu, com pequenos avanços e perdas difíceis de serem recuperadas. Uma hora e dez minutos depois, o acordo: Jorjão concordou em descer para tomar um cafezinho e conversar, mas com uma exigência: todos deveriam se afastar e ficariam apenas ele e a doutora, com quem entraria na sala. E mais ninguém. Proposta aceita. Fora da ambulância, Jorjão gritou, com sua voz de trovão tsunamogênico:

– Somente eu e a doutora!

O paciente caminhava por um dos corredores, cujas luzes se acendiam à medida em que os dois passavam. Nesse momento, a Dra. Lúcia arrependera-se do que estaria para acontecer, mas já haviam atravessado o Rubicão – alea jacta est, imaginou a psiquiatra. Sem que se percebesse, oito funcionários do hospital investiram contra o paciente e o contiveram. Ato contínuo, aplicaram uma injeção previamente preparada especialmente para aquele caso, com quatro tipos de medicação. Muita agitação. O paciente era forte em demasia. Aguardaram alguns minutos e nada. Nada de efeito. A médica reavaliou o caso, e prescreveu mais um dos medicamentos. Em poucos minutos o paciente havia acalmado.

Jorjão foi internado, e permaneceu no hospital por três meses. Nesse período, falava com insistência no nome da Dra. Lúcia para os companheiros de quarto. A médica só atendia pacientes da emergência, em seus plantões noturnos. A psiquiatra só soube da alta de Jorjão através do pessoal de apoio.

Passaram-se seis meses. A médica, na fila do Banco do Brasil, distraída, conferia alguns papéis a serem pagos em seguida. Levantou o olhar e contou: duas pessoas à sua frente. Percebeu que, trás, a fila se expandira.

De repente, uma pancada forte e decidida em seu ombro. Dra. Lúcia virou o rosto e constatou a presença desconfortável de cinco dedos gigantes e uma palma de pele áspera arranhava sua pele.  Assustada, virou-se para trás.

– Oi, Jorjão. Como vai?

Escapando, feito gás de cozinha. Por falar nisso, a senhora me enganou. E não se engana uma pessoa daquela forma, doutora. Eu saí da ambulância para tomar um cafezinho e conversar. Fique sabendo que eu nunca esqueci daquela noite.

Logo, um senhor ao lado apresentou-se como seu pai – a médica o percebeu já recuperado dos traumas que sofrera naquela noite –, e a conversa ficou um pouco mais amena. A médica respirou aliviada quando foi chamada pelo caixa do banco.

Quando a psiquiatra se aproximava da porta giratória, Jorjão, já sendo atendido, virou-se para trás e lançou, qual flecha mortal, um olhar 121 na direção da Dra. Lúcia. A médica quase congelou, pois conhecia muito bem o seu sentido. Instintivamente, lembrou-se do Código Penal.

E aquela expressão, proferida no interior de um banco, em uma tarde quente, ribombaria nas paredes de suas lembranças: Não se engana uma pessoa daquela forma.

Um paciente. Uma aprendizagem. E uma mudança radical.

A verdade – sempre – deve fazer parte da terapia, constataria a partir daquela noite.


Responses

  1. Gostei!
    Ouso pensar que o Evaldo está ficando cada dia melhor de se ler, gostar e admirar…
    Ou, não?

  2. Impossível não lembrar de “Um Estranho no Ninho”, com Jack Nicholson. Aliás, como na crônica anterior, vc está cada vez mais escrevendo com a técnica dos roteiristas de cinema. Facilita para o leitor “visualizar” a cena descrita. Se algum dia vc se dispuser a ministrar uma oficina literária reserve uma vaga pra mim.

  3. Dr Evaldom, Nesta cronica o senhor abordou um assunto, muito delicado. A mente humana.
    Ate cerca de uns 5 anos atras eu nao conhecia nada sobre esta doenca. Hoje me interesso por tudo que tem haver com bipolar. E uma doenca muito triste, sem cura, e que nao se manisfesta em pessoas como outras mais comuns, que sao doencas de himune sistema, ou pessoas que fumam, bebe, mantem uma dieta alimentar nao saudavel, e pessoas que abusam fisicamente do corpo, com noites mal dormidas, e horarios de trabalho imppropio. O bipolar pode ser doente e nem ele ou as pessoas da familia nao saberem . Pode ser manisfestar em uma fase adulta bem avancada,(Mas nao mais de 45 anos de idade )quando esta pessoa sempre teve um comportamento normal. E muito triste. Um abraco.e parabens pela linda cronica.


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