Publicado por: Evaldo Oliveira | Fevereiro 11, 2012

ESTRATÉGIA X BRUTALIDADE

A população precisava de sua intrépida presença, como delegado de polícia. A coletividade não podia continuar acuada, face às ameaças arrogantes dos facínoras da região e dos que, de cada vez mais longe, vinham desafiar a ordem e o respeito da vila. Era preciso frear o grupo, antes que o pior viesse a acontecer.

Quatro elementos deixavam a população em desespero, incapaz de seguir as rotinas de seus labores. Era um sofrimento geral.

Ainda não convencido por inteiro de que deveria assumir tamanha responsabilidade, com poucos suportes, além da coragem e da bravura sua e de seus comandados, o delegado disse o esperado “sim” e partiu para o que desse e viesse. A ordem e a justiça seriam mantidas, a qualquer custo. Fosse quem fosse, teria de cumprir as leis e a ordem.

Fama é pouco, braveza tem de ser testada. E quanto mais depressa se testa uma nova autoridade, mais depressa ela é desmoralizada e o campo fica aberto para as diferentes leis e ordem reinarem, a serviço dos mais fortes. Assim pensavam os “foras da lei”.

Um dos elementos entrou na cidade fortemente armado, o que já era um desafio. Carecia ganhar a primeira batalha com o delegado da vila. Escolheu o dia e o lugar da feira. Que delegado, naquela época, teria coragem de colocar o povo entre dois fogos? O fora da lei queria ganhar, economizar munição e desacatar o delegado, em frente dos habitantes da vila e das redondezas.

O delegado ponderou riscos e forças. Não apareceu na feira e as provocações do meliante não foram confrontadas. Caíram no vazio. Sua cruzada não frutificou. Fazer o que na feira, se não podia trocar tiros com os pretensiosos “homens da lei”? Deu um grito de guerra e saiu o bando levantando poeira, no rastro dos cavalos. E houve louvores a todos os santos, pelos que se viram livres de tão sinistra companhia.

Onde estava a bravura do Delegado de Polícia? O júbilo da liberação do perigo logo deu lugar à maledicência e à galhofa. “Cadê a brabeza do homem, que nem aparecer apareceu?”

Não demorou muito e um jegue esbaforido trazia um caboclo e sua notícia: o bando do meliante, mal acabara de gargalhar sua estrondosa vitória, um tiro partiu detrás de umas pedras enormes que ladeavam a estrada. Apanhados de surpresa, os forasteiros ainda tentaram reação. Mas fugiram quase todos, sob a saraivada de tiros do delegado e seus homens.

Foi um reboliço na feira. O delegado aumentou sua fama. O bicho era homem! Enfrentou e matou o temido fora da lei.

Roteiro de um bang-bang americano? Não.

Local: Serra do Teixeira, Paraíba.

Ano: 1876

Delegado: Liberato Dantas

Quatro elementos “foras da lei”: Manoel Rodrigues, Cirino, João e Juvino Guabiraba, procedentes de Pajeús de Flores.

Estratégia e seus princípios – escolha do local da batalha, concentração de forças (diretas e indiretas), e  ataque sobrepôs-se a brutalidade e seus sinônimos: rudeza, grosseria, violência, selvageria.

Baseado no livro Uma Família na Serra do Teixeira, de Fábio Lafaiete Dantas e Maria Leda de Resende Dantas, Editora Liber, Recife-2008, págs. 150/151.


Responses

  1. Caso interessante este.
    Com a sua autorização o usarei em minhas explanações em sala de aula.
    Realmente foi uma bela estratégia.
    Abraços.

    Edivan da Silva

    • Prezado Prof. Edivan, um prazer saber que um trabalho meu est sendo usado por uma pessoa ilustre. Evaldo. Em 17/02/2012, s 14:33,


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