Publicado por: Evaldo Oliveira | Setembro 30, 2011

A ÉGUA QUE MUDOU DE COR

Seu Quinquim era um velho esperto, que morava em um sítio, logo que a placa indicava a mudança dos domínios de  Mossoró para Areia Branca, no ponto em que a maresia começa a se apresentar às nossas narinas. A propriedade – à época, falavam granja – ficava à margem da única estrada que ligava as duas cidades.

Corria o ano de 1951. Por ali passava, com certa frequência, um grupo de ciganos, que sempre parava para descansar e tirar uma prosa. Certo dia, logo depois do almoço, na porteira da granja, seu Quinquim fez uma proposta para Aristeu, o chefe do mais antigo grupo de ciganos que periodicamente visitava Areia Branca, e que estava de passagem para Mossoró.

– Aristeu, vamos fazer uma troca?

– Vamos, respondeu o cigano, mesmo sem saber do que se tratava.

Seu Quinquim, fazendo-se de desinteressado, foi direto ao assunto:

– Eu troco aquele lindo cavalo bege, o Falkland, que está ali, pastando, por essa sua égua de cor cinza escuro.

O cigano pediu para ver o cavalo. Afastou-se um pouco, olhou de um lado, do outro, abriu a boca do animal e falou:

– Negócio fechado, mas eu quero aquele porco na troca, porque o meu animal é muito melhor que o seu.

O sitiante pensou, fez ar de quem não gostou, passou a mão no bigode, já quase todo branco, deu uma puxada no rapé, espirrou e respondeu:

– Negócio fechado!

E os ciganos se foram, levando o cavalo bege e o porco. Sumiram no horizonte. Era uma sexta-feira, e seu Quinquim ficou imaginando mostrar sua égua cinza, muito elegante, aos amigos, na feira do dia seguinte. No outro dia, o velho acordou cedo e pediu para o fiel Sizenando selar a égua recém-adquirida. Estava tomando café quando o empregado gritou, com ar de espanto:

– Seu Quinquim, venha ver o que aconteceu com a égua do cigano! Ela desbotou, com a chuva que caiu pela madrugada.

O velho turrão não acreditava no que seus olhos viam. A égua fora pintada, e restos de tinta marcavam no chão o cinza escuro que escorrera do animal. E, em seguida, descobriu que o cigano amarrara um arame em cada uma das patas do animal, no tornozelo, forçando a égua a andar na ponta dos pés, com aquela aparência elegante. Cortou os arames das quatro patas e a velha égua arriou, e passou a caminhar desajeitada. Quinquim ficou furioso. Não admitia ser enganado. E ainda mais por um cigano.

Os meses se passaram. Em uma tarde quente de outubro, sob o império do cheiro dos cajueiros floridos, seu Quinquim viu os ciganos despontando no início da longa curva, de onde avistava, ao longe, à direita, a placa de Areia Branca. “É agora” – pensou ele. E se dirigiu – chinchelando uma velha e encardida sapatilha – para o portão da propriedade, esfregando o bigode. Pitoco, o cão da casa, cuidou de se entocar debaixo do armário da sala, recolhendo o rabo e escondendo a cabeça entre as patas, sonhando com um bom osso no jantar. Os ciganos foram se aproximando, cumprimentando com a cabeça, e o velho logo atacou:

– Aristeu, seu velhaco imprestável, você me enganou! Você bem que merece uns cocorotes. Sua égua era pintada, e tinha as patas amarradas com arame.

O cigano, sem perder a calma, respondeu:

– Tudo bem, eu concordo que a égua foi pintada. Mas o seu cavalo tem ataques de epilepsia quase toda semana. Há uns quinze dias, quando eu passava no alto da serra de Martins, ele teve uma convulsão violenta, e me jogou pra bem longe, e eu quase caí na ribanceira. Se o senhor quiser destrocar, tudo bem. Mas o porco eu já comi.

– Vamos deixar como está, porque eu já me acostumei com essa égua desbotada e peidona. Vamos entrar e tomar um café com bolacha.

A égua, à distância, parecia alheia àquela discussão, porém ligada nos olhares libidinosos do cavalo. Os ciganos tomavam café na varanda da casa quando ouviram relinches estridentes. Era o cavalo que, de forma atabalhoada, e depois de semanas transportando tralhas pelos rincões da região oeste do estado, chamava a égua Malvina para um acerto particular, bem depois das touceiras de bananeiras.

Todos estavam felizes. Todos.

EVALDO ALVES DE OLIVEIRA

Médico Pediatra, com especialização em

Homeopatia. Escritor. Sócio correspondente

do Instituto Histórico e Geográfico do RN.


Responses

  1. Evaldo
    Interessante, naquela época já tinha gente mal intencionada!!! Acho que me recordo de um Seu Quinquim (se não me engano, Lúcio) de Areia Branca. Não tenho sua memória, portanto solicito confirmação sobre este nome que me é familiar.
    Um abraço
    Sônia

  2. Criança, esse Quinquim chacareiro era mossoroense. Morava bem na divisa, mas do lado de Mossoró. O Quinquim Lúcio, até pelo nome, devia pertencer a outro nível na esfera de elétrons. Essa estória nos mostra os meandros dos interesses pessoais, onde o perde e ganha faz parte do jogo. Haverá sempre alguém querendo tirar vantagem. Um abraço.

  3. Evaldo
    O nome do causo foi que me lembrou outro Quinquim… Gostaria mesmo era de identificar sua família, em Areia Branca porque acho que era um dos amigos de meus pais. Mas, valeu a explicação sobre os enganosos deste nosso mundinho. Sempre uma lição proveitosa vindo de você. Grata!
    Sônia.


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