Publicado por: Evaldo Oliveira | Agosto 9, 2010

CASA MAL-ASSOMBRADA EM BRASÍLIA

Belarmina, diarista desde a adolescência, estava muito feliz. Justo no dia do seu aniversário iria começar a trabalhar no apartamento de um casal jovem. Ficava em uma quadra central de Brasília, era pequeno e recentemente reformado. Tudo novinho.

Como de costume nesses casos, inspecionou o imóvel nos mínimos detalhes, já planejando o desenvolvimento do seu trabalho. Fizera, em duas semanas, um curso de qualificação profissional, e estava ansiosa para por em prática as técnicas de limpeza e higienização de ambientes que aprendera.

Iniciou pela cozinha. Limpou, passou o pano, deixou tudo brilhando. Na sala, o sofá, as paredes, os rodapés, os equipamentos de som e imagem. O ambiente voltara a exalar aquele cheirinho de casa nova.

Hora do almoço. Belarmina se serviu a vontade. Havia comida e autorização para um banquete gastronômico. Descansou meia hora e retornou à lida.

Na área de serviço algumas garrafas e latas de cerveja denunciavam que a Copa do Mundo havia passado. “Quem teria vencido a competição?” – pensou a moça de forma displicente, enquanto admirava um quadro na parede.

Chegou a vez do casal. Cama bonita, televisão de plasma na parede, quadro erótico sobre a cama. Belarmina riu pela primeira vez naquele dia, contemplando a pintura. Depois cuidaria de passar algumas peças de roupa que a esperavam na área de serviço.

No quarto, uma prateleira lhe chamou a atenção. Precisava de limpeza e de uma boa organização. Uma lata de cerveja vazia chamou-lhe a atenção. Estava aberta, e seu destino seria o lixo reciclável. Esforçou-se um pouco, pois estava na prateleira mais alta. Não conseguiu alcançá-la. Foi à área de serviço e trouxe a escadinha. Subiu, percebeu que a lata estava realmente vazia e a segurou por cima. Uma voz em tom sedutor falou quase sussurrando:

– Ei, chegue mais perto. Venha. Chegue mais perto.

– Meu Deus, o que é isso?! – exclamou a trabalhadora em estado de pânico, já no chão. Da porta do quarto, ainda ouviu uma voz masculina dizer:

– Ah! Traz uma cerveja!

Belarmina atirou-se porta afora, ainda escutando a voz do homem a pedir mais cerveja.

Já no rumo do elevador, o coração disparado, a muito custo voltou e trancou a porta. A voz do homem ecoava em seus ouvidos. Belarmina dizia em voz alta, já no elevador:

– Tem gente aí dentro, e é um casal!

Embaixo, aflita, quase sem voz, comunicava ao zelador que havia um casal no apê 302, e que o proprietário deveria ser informado urgentemente. Em cinco minutos Omark, o dono da casa, chegava ofegante. Havia ultrapassado um sinal vermelho para chegar mais rápido, e se dirigiu ao apartamento seguido do zelador, que, por via das dúvidas, carregava um velho taco de beisebol que ganhara de um morador, e que fora estrategicamente esquecido em sua guarita. De longe, Belarmina acompanhava o zelador e o patrão com o coração disparado e a respiração ofegante.

A porta foi aberta por Edravoc – o porteiro -, com seu taco de beisebol na mão direita, e por Omark, o dono da casa. Entraram todos. Todos não. Belarmina ficou segurando a porta, com o pescoço esticado na direção dos dois. Só com muita insistência eles fizeram com que a moça largasse a porta e os acompanhasse até o quarto.

Belarmina os acompanhou, com as pernas tremendo. Olharam embaixo da cama, nos armários e nada. Ela apontou para o armário.

– Foi dali que vieram as vozes – falou, já com a escadinha na mão. E se afastou.

O dono da casa subiu, olhou e nada de nada. “Foi quando peguei nessa latinha”, falou Belarmina de longe. Omar então pegou a latinha pela tampa, e veio a surpresa:

– Ei, você. Chegue mais perto – falou uma mulher. Belarmina, aos gritos, falou:

– É ela! É ela!

Era uma lata de cerveja que Omark ganhara durante a copa, e que, quando tocada pelo lado de cima, falava.

Risada geral. Belarmina riu com aquele riso amarelo da decepção.

Nunca mais Omark teve notícia de Belarmina.


Responses

  1. Evaldo, veja se sua história se parece com essa, que um colega da Caixa me contou, ocorrida em 1984, aqui em Natal:
    Francisco, jovem de vinte e poucos anos, recém chegado do interiozão do RN, recebeu a missão de ir a um endereço na Candelária entregar uma encomenda. Duas horas mais tarde estava de volta, assustado. Perguntado se cumprira a missão, respondeu: Não, senhor. Naquela casa não volto mais. _ Por que, Francisco? -Casa “malassombrada” – Respondeu. – parede que fala!! O coitado nunca tinha ouvido falar de porteiro eletrônico.

  2. Historia muito boa , para um final de dia extressado.
    Obrigada pelas gargalhadas que me fizeram relaxar.
    Um abraco
    Dodora

  3. Dodora, um abraço. Essa estória é verídica. Foi o dono da casa que me contou. Só que ele perdeu a faxineira.

  4. o nome do porteiro é Covarde – Edravoc ao contrario?

    • É a segunda vez que isso acontece. Certa vez o personagem – e eu gosto muito desse nome – chamava-se MEGRIV e uma leitora perguntou se significava VIRGEM ao contrário. Puxa vida. É verdade.
      Do mesmo modo, Roma é Amor ao contrário. Parabéns pela observação.


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