Não sei se devemos liberar o emaranhado de sonhos ainda não sonhados. Suspeito de que, alhures, haja ruelas ainda não transitadas, portais de labirintos que se bifurcam, desafiando nosso discernimento. Não sei se, ao final, minotauros famintos suplantem nossa capacidade de mantê-los saciados, nós nem Teseu nem Ariadne.
Não sei se devemos repensar episódios sedimentados na água lodosa do passado, quando a resolubilidade era pequena e as questões ganhavam corpo e força desproporcionais.
Não sei se devemos remexer o fundo desse rio que passava entre montanhas que também se foram, tocadas pelo tempo, com o risco de toldarmos suas águas hoje inexistentes.
Não sei se devemos conduzir à mesa assuntos que ainda abastecem nossos pesadelos, ecoando nos grotões escurecidos de nossa consciência, alimentando inúteis infortúnios.
Não sei se devemos aguçar o que nos resta de audição, hoje carente de detalhes, numa tentativa de perscrutar sussurros mal compreendidos, ecos do passado, que ainda ribombam nos desfiladeiros da incompreensão.
Não sei se devemos, auscultando passos de então – que hoje sabemos serem claudicantes -, redefinir ritmo e intensidade de passadas, no esforço de identificar pisadas que trouxeram perplexidade e medo.
Não sei se devemos remexer baús e caixotes repletos de segredos, e acomodados em sótãos há décadas intocados.
Não sei se devemos, com os rastros do tempo impressos no rosto, retornar no oco do tempo, e, a montante, no contra fluxo, tentarmos reinterpretar estorvos de meninos.
Não sei se devemos, enfim, despertar agouros ancorados em antigos rancores, onde proliferam teias, hoje centenárias pucumãs.
Melhor será apenas viver.